MEDICINA
- COLUNA DE GINECOLOGIA
DRA. JULIANA LIMA DE ARAUJO
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CONSULTA DE CORREDOR
Um
dia destes uma paciente, funcionária de hospital, obesa,
hipertensa, com história de trombose venosa profunda veio
à consulta usando anticoncepcional oral (ACO), receitado
por uma colega em uma "consulta de corredor", num dia
de plantão. O que há de errado nisto? Pacientes com
este perfil têm contra-indicação absoluta de
usar ACO, pois correm um risco importante de embolia cerebral ou
pulmonar, com suas seqüelas e até mesmo a morte. A paciente
queria "apenas" resolver um problema de sangramento vaginal
que estava lhe causando transtornos. A colega fez uma aparente gentileza
para ajudá-la, receitando-lhe o ACO, sem ter outras informações
a seu respeito.
Essa é apenas uma história das muitas que chegam ao
consultório, cada vez mais freqüentes, as "consultas
de corredor". Deve servir de alerta tanto para médicos
como para pacientes. Pois muitas vezes nenhum deles percebe o quanto
isto pode ser nocivo para ambos. A consulta médica, como
qualquer ato médico compreende: o médico, a paciente,
atenção total do médico, cooperação
da paciente, técnica de exame (anamnese e exame físico),
ambiente adequado, apreço ao paciente pelo médico,
respeito e confiança no médico pelo paciente. Por
isso, para que a consulta médica ocorra, são necessárias
condições materiais (horário, local, equipamento),
circunstanciais (a doença, o doente; o médico, o profissional)
e afetivas (a relação médico-paciente). Sempre
que essas condições não forem satisfeitas,
configura-se a "Consulta de Corredor". Não é
preciso que ocorra necessariamente no corredor, pode ser por telefone,
na rua, no clube, em casa, no restaurante, na praia, por e-mail
e até mesmo no consultório.
O médico Danilo Perestrello em "A Medicina da Pessoa"
faz algumas referências sobre este assunto:
"Todas as atitudes do médico repercutem sobre a pessoa
doente e terão significado terapêutico ou antiterapêutico";
"Nem sempre o paciente está disposto a pagar o preço
para livrar-se do que o molesta. Muitas vezes deseja um efeito mágico,
algo que não solicite de sua parte, grande esforço";
"De modo geral o paciente induz o médico a algo, confere-lhe
um papel e este, não raro, sem o perceber, aceita";
"Não basta o médico ser bondoso ou simpático.
Compete a ele desenvolver a capacidade de se identificar com o doente,
sentindo-o como semelhante seu, a capacidade de se colocar no lugar,
na situação do outro";
"O verdadeiro médico se empenha autenticamente, com
um interesse humano real em ajudá-lo, e assim é percebido";
"São muitos os pacientes que procuram o médico
com o intuito de não se curar";
"São muitos os médicos que não interagem
com o paciente, considerando-o mais um";
"Muitos outros vêm à consulta buscando algo específico
e não permitem que se faça nada mais além do
que vieram buscar".
Resolvi escrever sobre este assunto, justamente porque todos os
dias luto contra esse tipo de consulta, não só no
consultório, mas em todos os locais por onde ando. Às
vezes consideram a minha negativa como uma atitude antipática,
mas é uma maneira de preservar a mim e ao outro(a). Foram
muitos anos de estudo para colocá-los em risco por uma "consulta
de corredor". No caso do paciente são muitos anos de
vida para arriscar-se desta forma. Mesmo sem considerar casos graves,
em que o desfecho pode ser a morte, sempre este tipo de consulta
deixa um rastro de resultados negativos, em maior ou menor grau.
As pacientes podem escolher ou trocar de médico, mas nós
não podemos escolher. Tento atender cada paciente de uma
forma particular, não apenas mais uma; meu desejo era, um
dia, atender somente pacientes que também não me considerassem
apenas mais uma.
Aquelas que lerem esta crônica, por favor, me ajudem, não
me peçam uma "consulta de corredor", ficarei chateada
e você certamente também, por que irei recusar. Obrigada
a todas as pacientes que estão comigo durante anos, e que
possamos continuar por muitos outros, sem nenhuma "consulta
de corredor" para nos atrapalhar.
Obs.:
algumas citações são do livro Tratado de Ginecologia,
de Halbe e col.
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Dra.
Juliana Lima de Araújo ( Hotsite
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publicada neste site: 08.05.2007
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