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MEDICINA - COLUNA DE GINECOLOGIA
DRA. JULIANA LIMA DE ARAUJO
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TERAPIA HORMONAL
na Peri e na Pós-Menopausa

Os riscos e benefícios da terapia hormonal (TH) têm sido controversos nas últimas décadas. Em 1960, foi lançado o livro Feminine Forever, pelo Dr. Robert Wilson, que considerava o estrogênio como a pílula da juventude, tendo o mesmo uma excelente aceitação. Com novos estudos em andamento, novos problemas foram surgindo.

Entre os conhecimentos e observações que, ao longo do tempo, mais impacto causaram, vale lembrar a associação da reposição de estrogênio isolada com o câncer de endométrio na década de 1970, as evidências de proteção cardiovascular durante as décadas de 1980/1990, o risco aumentado para o câncer de mama na década de 1990 e, finalmente, a publicação do famoso estudo norte-americano denominado Women's Health Initiative (WHI) em 2002. Este colocou em dúvida a proteção cardiovascular, até então, um dos alicerces entre as diversas indicações que justificavam a TH. Não só deixava de exercer cardioproteção, como aumentava o risco de eventos cardiovasculares. O WHI foi o primeiro ensaio clínico controlado e randomizado sobre prevenção primária da DCV (doença cardiovascular), incluía um número considerável de mulheres, foi projetado para durar oito anos, mas foi interrompido com 5,2 anos de andamento. Foi constituído de dois braços: em um deles, mulheres com útero recebiam estrógenos conjugados 0,625mg + medroxiprogesterona 2,5mg (nome comercial Premarin) contínuos ou placebo, de uma forma duplo-cega; no outro braço, mulheres sem útero (histerectomizadas) recebiam somente o estrógeno isolado ou placebo. Concomitante ao WHI, outros estudos tiveram andamento, como o HERS (1998), o Nurse's Health Study, o Milion Women Study, e outros pequenos ensaios. Em todos eles houve um risco levemente aumentado de câncer de mama após cinco anos de uso e, um resultado semelhante em relação à proteção do sistema cardiovascular, ou seja, não havia a proteção inicialmente suposta e defendida até então.

O ano de 2003 foi de muita ansiedade tanto para os médicos como para as pacientes. Muitos suspenderam a TH porque não havia um consenso sobre a sua segurança.

Outros se viam sem opções para aliviar os sintomas das suas pacientes e continuavam usando em esquemas diferentes do utilizado no WHI.

Os estudos envolvem dois universos muito diferentes, o dos epidemiologistas, que trabalham somente com dados numéricos e, o dos clínicos, que têm na sua frente mulheres sintomáticas que precisam de uma solução para seus sintomas. Em função deste dilema, o assunto TH ganhou a atenção tanto de ginecologistas como dos cardiologistas.

Nos últimos 5 anos, o WHI foi muito criticado e os seus resultados ganharam novas interpretações. A população de mulheres selecionadas tinha uma média de idade de 63 anos, 50% eram tabagistas prévias ou atuais, 35% eram hipertensas e uma boa parte era obesa ou estava com sobrepeso, com uma média de IMC=28,5Kg/m2.
Portanto, eram mulheres que provavelmente já tinham um grau de formação de placas em suas coronárias, devido aos seus fatores de risco cardiovascular.

A interrupção prematura do WHI causou uma verdadeira convulsão na comunidade leiga e científica em todo o mundo. Recentemente, a sua revisão vem mudando novamente a postura frente ao uso do hormônio, reconhecendo que os resultados anteriores estavam equivocados. Porém, levar-se-iam mais uns 10anos para que todas essas crenças fossem mudadas.

O uso de hormônio é indicado para o alívio dos sintomas, num momento chamado de janela de oportunidade, ou seja, quando a mulher entra na fase peri-menopáusica e apresenta-se sintomática. Não há evidências que justifiquem o seu uso para prevenção primária ou secundária de doenças do sistema cardiovascular. Segundo o professor mineiro Lucas Vianna Machado, hormônios não são drogas e não são destinados a curar. O seu uso após a menopausa não é uma terapia para uma doença. A TH, por definição, pode somente prevenir e/ou até certo ponto reverter os efeitos clínicos e metabólicos da deprivação estrogênica.

Os benefícios definidos da TH são: tratamento de sintomas vasomotores, como os fogachos; melhora de sintomas psíquicos; tratamento de atrofia urogenital; prevenção da osteoporose; redução de risco de câncer de cólon-retal; melhora no trofismo da pele; manutenção ou melhora do bem-estar geral; melhora da sexualidade e retardar ou prevenir doenças degenerativas do sistema nervoso central.

São consideradas contra-indicações para o uso da TH: doença trombo-embólica aguda e recorrente, doença hepática grave, câncer de mama, câncer de endométrio recente, sangramento vaginal não diagnosticado e porfiria.

Antes de iniciar a TH é necessário um exame clínico geral, incluindo exames laboratoriais, como perfil lipídico, glicose, função da tireóide, a pesquisa de sangue oculto nas fezes e outros que a história da paciente possa sugerir. O exame ginecológico, incluindo o citopatológico, ultra-sonografia transvaginal e mamografia. A densitometria óssea só deve ser solicitada se existirem fatores de risco para osteoporose ou em pacientes que já entraram há mais de 5 anos na menopausa e nunca fizeram TH.

Manter a TH por quanto tempo? Não há consenso sobre esta questão. Alguns recomendam enquanto houver sintomas; outros por no máximo 3 ou 5 anos. Uma vez iniciada a TH, com objetivos determinados, a sua continuação ou interrupção irá depender da manutenção dos benefícios para os quais ela foi iniciada, do aparecimento de efeitos adversos, do perfil de riscos e benefícios durante o seu seguimento, da melhora da qualidade de vida, da preferência da mulher em continuar a TH após ser suficientemente informada e da experiência e consciência clínica de cada médico.

Costumo comparar o uso de TH ao uso do carro. Ambos apresentam muitos benefícios, porém não são isentos de riscos. O carro possibilita o nosso deslocamento com certo conforto, independente das alterações climáticas; economiza tempo; permite-nos uma autonomia considerável, mas se analisarmos todos os riscos, nem em pensamento entraríamos dentro de um carro: poderíamos matar alguém, morrer, ter prejuízo com multas e gastos com a sua manutenção. Para evitar tudo isso são necessária muita cautela e prudência, além das revisões periódicas e o seu uso com responsabilidade. O mesmo ocorre com a TH, temos de usá-la com cautela, responsabilidade e sabedoria, tanto o médico quanto a paciente.

*** Este texto contém citações do Consenso da SOBRAC e do livro Endocrinologia Ginecológica de autoria de Lucas Vianna Machado.

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Matéria publicada neste site: 15.07.2007


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