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MEDICINA - COLUNA DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA
DRA. JULIANA LIMA DE ARAUJO
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ADOLESCÊNCIA

A adolescência é uma fase de transição entre a infância e a idade adulta. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) compreende o período dos 10 aos 19 anos; já para o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) brasileiro, vai dos 12 aos 18 anos. O fim da infância é marcado por transformações físicas, psíquicas e sociais.

A puberdade corresponde às modificações biológicas relacionadas ao crescimento físico e a maturação sexual, com o surgimento dos pêlos nas axilas e na região genital, espinhas, aumento da massa corporal e da velocidade de crescimento, cujo ápice é o estirão. Ocorre aumento do volume testicular e alteração no timbre da voz nos meninos. Nas meninas há um aumento do volume das glândulas mamárias e o principal fenômeno, que é a menstruação. Em apenas poucos anos, o adolescente se vê 30 kg mais pesado e até 50 cm mais alto. Não está diante de uma versão aumentada do corpo infantil, mas de uma imagem desproporcional, que não corresponde ao antigo reflexo no espelho. A percepção de imagem difere nos sexos: no feminino, a insatisfação com o corpo aumenta com o passar do tempo (aqui se inclui a bulimia e anorexia nervosa); já no masculino ocorre o inverso. Diante de tantas transformações, o cérebro precisa realinhar os mapas cerebrais referentes à percepção do corpo e a nova configuração física. Não é a toa que os adolescentes passam tanto tempo na frente do espelho. A impaciência e o tédio, comuns nos adolescentes, os levam a abandonar os prazeres da infância e a procurar satisfação em novas atividades e amizades, além de aceitar correr riscos, como por exemplo, sair de casa sozinho. O comportamento adolescente é resultado de um cérebro adolescente, que faz o que pode enquanto trilha o caminho para se tornar adulto.

O despertar da sexualidade é um terreno aberto para encontros e desencontros, pois o desejo se desloca do corpo para o exterior. Surge o interesse pelo amor sexual e o fascínio das paixões. Aqui está o grande papel do ginecologista nesta fase da vida feminina: orientar mães e filhas sobre a sexualidade, que a menina está se tornando mulher e, a qualquer momento isto pode acontecer. Cada vez mais os números mostram a alta incidência de gestação e doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) entre os adolescentes.

De acordo com o IBGE, o Brasil entrou no ano de 2000 com 36 milhões de adolescentes, cerca de um quinto da população total. De acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 1 milhão de garotas com menos de 20 anos ficam grávidas por ano. Gravidez, parto e puerpério perfazem, em todas as regiões do país, 80,3% do total de internações de jovens no SUS (Sistema Único de Saúde). Em 2004, os partos juvenis totalizaram 700 mil na rede pública e 150 a 200 mil fora dela, além de 500 mil abortos. Estima-se que 15% das mulheres com menos de 15 anos já tiveram pelo menos 1 filho; 1 em 3 mulheres de 19 anos já é mãe ou está grávida do primeiro filho; 1 em 10 mulheres de 15 a 19 anos já tinha 2 filhos; cerca de 49% destes filhos eram indesejados. No período entre 1993 e 1999, houve um aumento de 31% de gestações entre os 10 e 14 anos.

Portanto, a vida sexual da adolescente é um fato incontestável, sendo necessária muita orientação e diálogo com as mesmas. Uma pergunta freqüente é qual a idade ideal para levar a adolescente à primeira consulta ginecológica? Em minha opinião deveria ser quando ocorre a primeira menstruação, independente da idade; ou se surgir alguma queixa antes, como corrimento vaginal ou dores pélvicas. Deve haver uma concordância entre mãe e filha sobre o momento ideal. Uma dúvida das mães é sobre o uso de métodos contraceptivos para adolescentes: não "irão fazer mal" a elas? Com certeza nenhum mal será maior do que uma gestação nesta idade, não desejada e muitas vezes sem o pai da criança para dar apoio. O uso da pílula pós coital ou do dia seguinte se popularizou entre as adolescentes, porém só deve ser usada em casos de extrema emergência e não como método eventual, pois possui uma dose alta de hormônios.

Outro problema são as DSTs. Como as meninas estão começando a vida sexual cada vez mais cedo, há uma maior vulnerabilidade ao risco de contraí-las, especialmente AIDS, condilomas ou verrugas genitais (HPV), gonorréia, clamídia, sífilis, herpes, hepatite B e tricomoníase, entre outras menos freqüentes. Embora a camisinha masculina seja o método de prevenção a gravidez e as DSTs mais seguro, conhecido e utilizado pelos adolescentes, muitos deles ainda fazem uso irregular do preservativo ou não o utilizam. Um dos maiores fatores de exposição ao HIV e as DSTs para adolescentes do sexo feminino é o início precoce da atividade sexual. Segundo o estudo realizado pela psiquiatra Carmita Abdo, em 2006 sobre a vida sexual do brasileiro, nos últimos 40 anos a idade média de iniciação sexual baixou 5 anos entre as mulheres e um ano e meio entre os homens. Dados da UNESCO em 2004 apontam que as brasileiras têm a primeira relação sexual entre os 14 e 15 anos, em média. Outro fator importante de exposição, mas que não tem dados estatísticos a respeito, é a chamada "monogamia seriada", ou seja, a adolescente permanece com um parceiro por certo tempo, depois troca por outro e assim sucessivamente. Isto faz com que meninas de 14 a 15 anos tenham 5 parceiros ou mais em pouco tempo de vida sexual. Outros fatores são os envolvimentos com parceiros mais velhos e mais suscetíveis à DSTs/AIDS, menor poder de negociação quanto ao uso de preservativo e crença de não correr riscos nos namoros estáveis. A ida ao médico deve ocorrer bem antes da iniciação sexual, para evitar que este encontro só ocorra quando houver suspeita de gravidez ou de DST.

Conforme o ECA brasileiro, a adolescente tem o direito do sigilo médico, o que não ocorria antes do mesmo. O rompimento do sigilo ocorre apenas quando a situação o exigir, como nos casos de risco de morte ou de outros riscos relevantes para a adolescente e terceiros, decisão sempre pautada no bem estar real da paciente. Ainda assim, no caso de quebra do sigilo, a jovem deve ser informada antes.

Para as mães que lerem esta coluna, procurem resgatar sua adolescência, anos realmente incríveis, de crises necessárias, mudanças físicas e psíquicas. Não deixem que a nostalgia desse tempo de descobertas e desafios cubra com o véu do esquecimento aqueles momentos de insegurança que todas vivemos ao longo de quase uma década. Somente assim entenderemos os adolescentes como eles são, sem rótulos, com suas peculiaridades. Para que tenhamos adultos responsáveis consigo mesmo e com os outros.

*** Esta coluna possui citações dos livros:
"A Vida Sexual do Brasileiro" de Carmita Abdo;
"Adolescentes" de Marta Rezende;
Revista Mente e Cérebro, "O olhar adolescente 1";
Programa Nacional de DST e Aids. Ministério da Saúde, Brasil: www.aids.gov.br.


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>> Dra. Juliana Lima de Araújo ( Hotsite )
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Matéria publicada neste site: 04.09.2007


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