MEDICINA
- COLUNA DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA
DRA. JULIANA LIMA DE ARAUJO
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A GRAVIDEZ
Uma
gestação, geralmente dura nove meses. Este curto período
de tempo traduz, simbolicamente, uma vida inteira. Farei um paralelo
entre a vida e a gravidez e veremos que a esta é um pequeno
resumo da vida.
Ambas têm início e fim, mas não sabemos o dia
exato. Se não prestarmos atenção em cada momento,
em cada dia, quando nos dermos conta, já passou. Também
são imprevisíveis, uma caixinha de surpresas. Podemos
até planejar, mas não temos o controle. Se pensarmos
muito adiante, no futuro ou como vai ser o parto, a ansiedade se
instala. Como na vida, alguns estão preparados outros não,
para enfrentar as dificuldades. Para alguns parece mais fácil,
enquanto que para outros não se entende o porquê de
tantos problemas. Uns completam o ciclo e seguem em frente, outros
se perdem no meio do caminho, trazendo sofrimento aos próximos,
principalmente às mães, que, como na vida perdem um
pedaço de si. Diante de alguns obstáculos, vem o questionamento:
Por que comigo? Assim como na vida, na maioria das vezes não
encontramos respostas. Porém, a fé supera o medo e
a insegurança de tentar novamente. O aborto corresponderia
àquelas perdas que imaginamos não agüentar; mas,
como na vida, o tempo se responsabiliza pela superação.
Acreditamos que, se aconteceu, era porque tinha que ser assim. Aí
dizemos: "Deus escreve certo por linhas tortas" e nos
conformamos. Uns são esperados, amados, bem-vindos; outros
vêm de surpresa, sem convite e são rejeitados. Existem
pessoas que não conseguem ficar sozinhas; na gestação
tem os que já iniciam a vida acompanhados, os gêmeos,
trigêmeos e às vezes até mais. Uns são
mais calmos, movimentam-se menos, não chamam muito a atenção.
Outros são mais impacientes e inquietos, a ponto de causarem
desconforto.
Esta situação ímpar da vida da mulher nos ensina
que somos impotentes frente a determinadas situações,
apesar de muitas vezes acharmos que temos o controle. Caso nos falte
paciência e sabedoria para aceitar ou entender os acontecimentos,
o sofrimento será maior.
A maternidade é um dom! Portanto, nem todas as mulheres o
possuem. Ser mãe não é para qualquer uma. Porque,
para ter um filho, a mulher tem de abdicar a si própria e
colocá-lo em primeiro lugar. Para que ele exista e sobreviva,
ela abre mão de sua beleza, do seu trabalho, das noites bem
dormidas. Este é o verdadeiro amor incondicional.
Uma mulher, depois que é mãe, nunca mais será
a mesma, nem que ela assim o deseje. O filho é um prolongamento
de seu corpo, da sua alma. Talvez isto explique o porquê das
mães terem tantas preocupações com os filhos.
Quanto mais ele vai crescendo, mais ela se angustia, pois está
perdendo o controle sobre aquela vida que gerou. Muitas sofrem quando
param de amamentar, por que no íntimo, sabem que a partir
daquele momento, seu pequenino está se tornando independente
dela. O tempo passa e recompensa tanta dedicação.
Assim como a gravidez é uma fase especial, a Obstetrícia
também o é. O verdadeiro obstetra é aquele
que consegue ver, que por trás de cada grávida, existe
um ser humano com anseios, alegrias e tristezas, saudades e esperanças,
dúvidas e medos. Aquele que vai além do corpo físico,
que acolhe, orienta, explica, valoriza suas queixas. Aquele que
assume a grande responsabilidade de conduzir em suas mãos
duas vidas, multiplicadas muitas vezes, por dezenas de outros pares
de mães-fetos. Não há outra profissão
que crie um vínculo tão grande com o seu cliente,
quanto à Obstetrícia. É a primeira pessoa a
tocar o filho que a mulher concebeu, gerou e carregou durante alguns
meses, antes mesmo da própria mãe.
Frente à grande responsabilidade do obstetra, tem de haver
uma relação de confiança muito grande entre
ele e a gestante, pois o caminho que têm de percorrer juntos
é desconhecido. Assim como pode ser tranqüilo, também
pode ser tortuoso. O plantão nos mostra como esta relação
é complicada, um médico e uma paciente que não
se conhecem. As maiores tragédias nesta área acontecem
nos plantões do SUS, onde médicos e pacientes são
vítimas de um sistema tão deficiente. A responsabilidade
sempre recai sobre o médico que atende a grávida.
Se tudo dá certo, nem o nome do obstetra se sabe; se dá
errado é só dele que lembram. A responsabilidade tem
de ser da própria gestante ao realizar o pré-natal,
do médico que a acompanha, dos vários plantonistas
que a atendem e também do obstetra que realiza o parto.
Como obstetra de pacientes que me escolheram para tal, posso garantir
que é muito gratificante fazer parte da vida dessas mulheres;
acompanhar durante anos o fruto do meu trabalho e saber que fui
importante em suas vidas. Para tal, tenho que me despir de preconceitos
morais, sociais, culturais, espirituais, religiosos e de qualquer
outra natureza e, simplesmente ser Humana, humanizando o atendimento
obstétrico.
Um agradecimento à todas as mulheres que me escolheram como
sua obstetra, dando-me o privilégio de conduzir esta fase
tão especial de suas vidas.
***
Algumas citações deste texto foram extraídas
do livro:
"A Grávida", de Tedesco, J.J.de A.
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Dra.
Juliana Lima de Araújo ( Hotsite
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* Matéria
publicada neste site: 15.10.2007
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