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MEDICINA - COLUNA DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA
DRA. JULIANA LIMA DE ARAUJO
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RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE
NEM TUDO ESTÁ PERDIDO


“Tenho a satisfação de poder praticar uma medicina livre,
sem a imposição de qualquer sistema, seja ele público ou privado.”






A relação médico-paciente vem sofrendo um desgaste cada vez maior no decorrer dos anos devido à presença de muitos intrusos neste relacionamento. Seguros e/ou planos de saúde, famílias, processos, advogados, entidades de classe, acesso irrestrito à internet, concorrência desleal e o fracasso do sistema público são alguns dos responsáveis por essa degradação. Apesar dos avanços, com progressos tecnológicos espetaculares no diagnóstico e tratamento das mais variadas doenças, o doente nunca foi tão esquecido. À medida que o médico aumenta os conhecimentos técnicos, diminui progressivamente a percepção do paciente como ser humano, afastando-se naturalmente dele. A doença passa a ser o foco. Numa sociedade onde o “ter” assume um papel de destaque, a relação médico-paciente torna-se meramente comercial, desaparecendo o vínculo humanístico. Como consequência, o paciente é visto por partes e não holisticamente como deveria ser.

“A medicina, talvez a mais nobre das profissões, vem se esquecendo cada vez mais da relação médico-paciente. O médico está desaprendendo a arte de curar, esqueceu que esta relação humana é muito mais abrangente do que simplesmente diagnosticar e tratar uma doença, desconhecendo o poder terapêutico de suas palavras”. (A Arte Perdida de Curar - Bernard Lown).

Em meio a processos, o médico passa a ver o paciente como um potencial inimigo e se distancia ainda mais dele, principalmente nos plantões, onde ambos são vítimas. De um lado, médicos com poucos e sobrecarregados à espera de alguém que nunca viram, sem vínculo algum. De outro lado, pacientes doentes, insatisfeitos por não possuírem um médico “para chamar de seu”, indo ao encontro do desconhecido, já esperando um atendimento ruim. Não é por acaso que este é o palco de muitas tragédias. A obstetrícia é a especialidade mais vulnerável a esses desencontros, pois nessa área não são esperados contratempos e, no plantão, é onde eles mais acontecem. A responsabilidade sempre recai sobre o médico que atende a gestante. Se tudo dá certo, nem lembram o seu nome; se algo sai errado é somente dele que lembram.

Tive a oportunidade de ver esse cenário no início da minha carreira e fazer a opção de não participar dele. Comparo a gestação a uma viagem de nove meses. Quando planejada e com parcerias escolhidas, mesmo havendo contratempos, a chegada ao destino ocorre de forma tranquila. A confiança mútua é algo fundamental nesta fase ímpar das mulheres. Assim como existem médicos que não fazem vínculos com suas pacientes, também existem muitas pacientes que não permitem essa aproximação. Tenho a satisfação de poder praticar uma medicina livre, sem a imposição de qualquer sistema, seja ele público ou privado. Além disso, sou privilegiada por trabalhar somente em minha clínica e, de certa forma, poder escolher minhas pacientes, ser escolhida por elas e acompanhá-las pelas várias fases de suas vidas. Infelizmente não há em nossa formação médica nenhuma disciplina com este enfoque humanista.

“A ausência dos ensinamentos da disciplina psicossomática em nossa especialidade resulta, não raro, em consultas e atendimentos que frustram e desgastam, ao mesmo tempo, médico e paciente.” (Ginecologia e Obstetrícia Psicossomática - Júlio Tedesco).

A postura psicossomática consiste na disponibilidade do médico em atender o paciente de forma global, possuir a capacidade de colocar-se no lugar dele (empatia), saber ouvir, acolher, ter respeito, ser solidário e compreensivo. Recentemente tive o privilégio de assistir a uma emocionada apresentação de dois ícones da ginecologia brasileira e mundial, excelentes exemplos de professores e médicos humanos, Dr. Ronald Bossemeyer (“O médico deve conhecer mais a pessoa que possui a doença do que a doença que a pessoa possui”) e Dr. Elsimar Coutinho (“Não existe ressentimento mais duradouro do que aquele que temos do médico que se torna indisponível quando dele necessitamos e, se soubermos que se escondeu deliberadamente para não ser encontrado, jamais o perdoaremos”). Ambos nos encantam com suas sabedorias, lapidadas pelos anos, pelas lutas e hoje traduzidas por frases memoráveis, dignas do mais alto louvor. Verdadeiros representantes de uma medicina que já traz em si uma saudade antecipada gravam suas palavras em nossas mentes e plantam suas sementes em nossos corações para sempre. Bem próximo de mim existem muitos médicos que trabalham desta forma e, anonimamente, fazem o seu trabalho sem receber as honras merecidas. Alguns deles eu nem conheço pessoalmente, mas fazem parte do meu dia-a-dia e, incondicionalmente, engrandecem o meu trabalho como se fossem o prolongamento do meu saber. Aos poucos vou descobrindo estes médicos maravilhosos, raros e especiais, a quem posso confi ar minhas pacientes com segurança. A eles dedico esta coluna como forma de agradecimento. Eterna gratidão ao meu tio Nelson Lima, primeiro e grande exemplo de “Ser Humano” na Medicina.

Muitos nomes poderiam aumentar esta lista, mostrando que essa profissão ainda é digna de muito orgulho. Anestesistas Maria Emília e Daniela; cardiologia Ari Rainer e Paulo Zielinski; cirurgia geral Júlio Barra; cirurgia plástica Sandra Reolon e Níveo Steffen; dermatologia Renan Minotto e Rosane Schmidt; gastro Cíntia Presser e Everton Hadlich; ecografia Ismael Zortéa, Régis Valdívia e Eduardo Becker Jr.; ginecologia Norberto Rossi e Adriana Schmidt; mastologia Márcia Melo; neurologia Denise Orsato e Pedro Schestatsky; oftalmologia Jeanine Mársico; oncologia Ricardo Preger; otorrino Cristine Kinderman e Leandro Gonçalves; pediatria André Alcântara, Carlos Humberto Silva, Ma. Helena Dellazzana e Tânia Beatrice; pneumologia Juliana Escobar; proctologia Roberto Amaral; radiologia Beatriz Amaral e Alvaro Borba; reumatologia Marcelo Maltchik; urologia Moacyr Almeida; Lab. Citoclin Flávia, Heloisa e equipe.

“Somos prisioneiros do tempo, vítimas da biologia e reféns da nossa capacidade de sonhar. Se soubermos interpretar bem o nosso papel – oferecendo força, afeição e amor – teremos feito o sufi ciente. Em algum momento, entre o choro de um bebê e o brilho distante de uma estrela, vivenciaremos o mistério. E, na plenitude do tempo nossos atos darão frutos e um pouco de bondade será distribuído em nossa memória”. (Simples Verdades - Kent Nerbum). •


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>> Dra. Juliana Lima de Araújo ( Hotsite )
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Matéria publicada na Revista Classic Life
Edição nº 16 - PRIMAVERA - 2009


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