COLUNA
DE PSICOLOGIA - CLÍNICA
DRA. SIMONE ENGBRECHT
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A
Relatividade do novo Milênio
Uma
mulher ou um homem com 70 anos em 2007 é muito diferente
das pessoas com esta mesma idade há pouco mais de 20 anos.
As últimas décadas revolucionaram nossa percepção
a respeito da passagem do tempo em nossas vidas. O que significa
fazer 15, 40 ou 90 anos hoje é muito diferente do que significava
nos anos 70 ou 80. Sabemos que a maior longevidade trouxe conseqüências
para os novos tempos. A vitalidade em cada idade comparada a outras
gerações é impressionante. Quando ficamos velhos?
Nunca a resposta a esta pergunta foi tão relativa.
É inquietante o paradoxo da temporalidade na atualidade.
Se, por um lado, temos mais tempo de vida, mais tempo oferecido
pelas facilidades oferecidas pela tecnologia, nunca as pessoas queixaram-se
tanto da falta de tempo. Falta de tempo com os filhos, com os amigos.
Falta de encontros. E, se por um lado parecemos mais jovens em 2007,
nunca o temor em relação aos sinais de envelhecimento
foi tão grande.
A Teoria da Relatividade de Einstein, formulada há pouco
mais de cem anos, revolucionou a concepção da percepção
do tempo. Como a passagem do tempo depende de um movimento, a posição
do observador relativiza a velocidade observada. Se estivermos assistindo
a um trem em movimento, ele irá se mover mais rapidamente
se estivermos parados numa estação do que se estivermos
em um carro em movimento ao lado do trem. É, a partir de
uma referência, que percebemos, que comparamos e concluímos
o que está acontecendo.
Esperando em um aeroporto, esperando no engarrafamento do trânsito,
esperando para sermos atendidos por alguém real quando escutamos
uma secretária eletrônica dizendo que no momento as
posições estão ocupadas... esperando, temos
a sensação de que, parados, a vida corre e que estamos
perdendo tempo. Não acompanhamos a velocidade da luz da pós-modernidade.
Todos sofrem por uma angústia em estar perdendo algo. A humanidade
ganhou mais tempo de vida, mas ele passa mais rápido.
Na construção de nossas identificações,
percebemos as relações com a relatividade de nossas
referências. As pessoas sofrem com uma falta de referência.
Se alguém quiser construir um relacionamento amoroso utilizando
como referência a geração anterior, sentir-se-á
um estrangeiro em sua própria pátria. Por outro lado,
sem referências, não podemos nada perceber. Relativizar
as percepções é perceber que elas dependem
de uma referência e que, quando esta última é
modificada, altera-se o resultado do que percebemos. É fundamental
conhecermos qual é nossa referência atual para não
estabelecermos julgamentos a partir de referências ultrapassadas
pelo tempo que corre.
Não parece mais ser a geração anterior a referência
de identificações e mudanças. Numa sociedade
onde a diferença geracional parece borrada pelo tempo, a
angústia é muito grande. Não há modelos
para copiar ou se rebelar. Como então re-conhecer-se em 2007?
Para construir novos tempos, sempre utilizamos o passado como alicerce.
Hoje, isso não parece mais possível.
Uma vida mais longa tinha valor num tempo onde a duração
de qualquer coisa era fundamental. No momento em que a durabilidade
não é mais valorizada, precisamos encontrar quais
são os novos ideais. Eles são a nossa referência.
Hoje talvez ela não seja mais fixa como há 20 anos
atrás, talvez não estamos mais parados em uma estação,
ou geração, observando a vida. Estamos correndo, estamos
em movimento, como passageiros de um trem. Talvez, nosso novo ponto
fixo sejam nossos companheiros de viagem. Perceber-se acompanhados
pela amizade talvez seja um valor não descartado ao longo
das gerações. Diga-me com quem andas que te direi
quem és. Em 2007, o ditado precisa ser modificado para diga-me
com quem corres que te direi quem és. Se o temor do envelhecimento
estiver associado a ficar para trás por não conseguir
mais correr, os amigos são fundamentais neste momento, porque
nos lembram de qual era o sentido da nossa viagem. Sem eles, viajamos
sem destino. Com eles, amadurecemos no novo milênio, sem envelhecer.
Não ficamos para trás.
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Dra.
Simone Engbrecht ( Hotsite
)
Psicóloga
e Psicanalista
CRP 07/05555
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Matéria
publicada neste site: 09.08.2007
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