Classic Life • Psicologia
 

  
COLUNA DE PSICOLOGIA - CLÍNICA
DRA. SIMONE ENGBRECHT
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Em Busca do Paraíso

Descobrir o sentido de nossa existência é sempre um trabalho desafiador. A atualidade confunde felicidade com alívio. O alívio é uma das formas de prazer. A vida vai ensinando a não descarregarmos nossas necessidades com imediatismo e tolerarmos o que não podemos realizar. Aliviar necessidades é o caminho mais fácil para chegarmos rapidamente ao fim. Investir em ideais requer um trabalho diferente, um prazer com o desafio, com o risco de não sabermos totalmente no que vai dar cada uma de nossas escolhas. Em uma canção do Engenheiros do Hawaii, 'as aranhas não tecem suas teias por loucura ou por paixão', nos inspiramos a perguntar: qual é a loucura e a paixão que nos faz tecer? Conseguimos ser felizes sem trabalho? Hoje, muitos se perguntam ao contrário, poderemos ser felizes trabalhando?

A teia criada pelas oportunidades e pelos desejos de um trabalhador constrói sua identidade. Muitas pessoas são identificadas pela sua profissão e as características de suas atividades profissionais reforçam alguns de seus hábitos. Mesmo assim, cada um dá o seu tom ao seu trabalho. Por outro lado, o trabalho pode tornar-se um sacrifício, quando nele não estão embutidos os valores que dão identidade a pessoa. Então, o paraíso fica descrito como um lugar sem trabalho.

Manter a paixão de um início de namoro é uma tarefa que exige investimento. Existe uma paixão na vida profissional que termina? Ou existe uma paixão difícil de encontrar? Isso depende de que maneira a pessoa lida com suas paixões. Idealizar uma pessoa, uma atividade, uma situação, faz parte do momento inicial de entrega. Entregamos nossa atenção, nosso tempo e, principalmente nosso coração porque o alvo de nossa paixão nos encanta. A partir daí, descobrimos mais a respeito de nós mesmos. Essa descoberta nem sempre é agradável. Quando estamos apaixonados, estamos, de certa forma cegos para o mundo, mas passamos a nos perceber melhor. Aí está o momento mais difícil de uma escolha, onde as idealizações reclamam por tornar-se ideais. Tolerar a si mesmo não é nada simples. Muitas pessoas trocam com facilidade o alvo, porque tentam fugir deste momento. Só conseguem conviver com as paixões iniciais, enquanto as idealizações imperam.

Trocar de parceiros parece comum e quase banal na atualidade. Trocarmos de emprego também é possível, mas modificarmos nosso rumo profissional é muito mais complicado, pois implica em uma mudança não apenas de atividades, mas de identidade. Fazer uma escolha sempre é doída porque implica em tolerarmos o que deixamos de fora. Quando refletimos melhor sobre duas promessas da atualidade: aliviar necessidades nos conduz ao paraíso e não precisamos escolher nada; escutamos, nas entrelinhas, que essas promessas nos conduzem a viver a vida sem intensidade. Não escolhendo, ficamos sem escolha a meio caminho de tudo. É a tolerância ao que não somos, não temos e não fazemos que sustenta nossa identidade. Sem ela estar definida, a angústia surge e busca um sentido. Não adianta a vida nos ensinar a não aliviarmos simplesmente nossas necessidades, precisamos aprender. Aprender a escolher é um trabalho diário que convoca nossa coragem em sustentar atitudes, ideais e sonhos. Os humanos tecem por paixão, sem ela enlouquecem tecendo. Jamais tecem por tecer. Quando não encontramos o paraíso, podemos estar certos de uma coisa, estamos ainda vivos.

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>> Dra. Simone Engbrecht ( Hotsite )
Psicóloga e Psicanalista
CRP 07/05555
 

* Matéria publicada neste site: 21.08.2007


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