Classic Life • Psicologia
 

  
COLUNA DE PSICOLOGIA - CLÍNICA
DRA. SIMONE ENGBRECHT
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Culpa e responsabilidade

Parece paradoxal que em um país com tamanha impunidade, muitas pessoas sofram por culpar-se por tudo o que acontece ao seu redor, até mesmo quando não possuem nenhuma participação direta nos fatos, ou mesmo, quando sentem culpa, se angustiam, e não sabem nem localizar muito bem de onde vem este sentimento. É estranho também que as opiniões tecidas sobre os fatos na atualidade tenham sempre um tom de julgamento. Como se todos fossem vigiados por uma avaliação de valor.

Culpa e responsabilidade parecem conceitos confusos neste novo milênio. Confusos, porque além de, por muitas vezes, desconsiderados, por outras, não são diferenciados entre si. Em alemão, culpa é traduzida por schuld que também significa dívida. A sensação de angústia de muitas pessoas neste século parece estar envolvida com esta sensação: a sensação de estar em dívida com seus ideais. Este mal-estar se relaciona diretamente com a depressão.

Quando a pessoa amadurece, o sentido da sua vida é o alimento principal de sua auto-estima. A depressão opera uma dificuldade em realizar os ideais da vida porque ficam mal traçados, o conteúdo dos ideais não é muito claro. Os ideais do novo milênio produzem dívidas impagáveis. Ser perfeito é um ideal muito vazio, ninguém consegue dar conta de ser tudo e ter tudo ao mesmo tempo. Com dívidas imensas em relação aos seus ideais, é natural que ninguém possa responsabilizar-se por nada, não sentir-se sujeito de sua própria vida. E, por outro lado, culpado e em dívida.

Responsabilizar-se significa responder pelos seus atos, sejam eles de que natureza for; ter responsabilidade significa ser dono de si mesmo. Aí parece estar o centro principal da confusão. A possibilidade de saber quem somos e do que somos donos. Refletindo sobre a tradução de culpa em dívida, poderíamos entender que, quando possuímos dívidas, e muitas... não conseguimos nos sentir donos de alguma coisa.

Para nos apropriarmos de algo é preciso que saldemos nossas dívidas. Sim, mas a questão da dívida que cada um possui em relação a sociedade parece estar na falta de sentido para cada vida traçado pelo ideal de perfeição. Se todos quiserem ser perfeitos, possuírem uma vida perfeita, um final de história de conto de fadas, terão o fim de sua história e não, o meio dela. O interior da vida de cada um é recheado por acontecimentos, fatos, pessoas e sensações que não podem ser qualificadas apenas por boas e ruins, agradáveis ou não, tornar o sujeito celebridade ou não. O sentido e a qualidade da vida de cada um é mais complexo. Traçar um ideal de vida que faça sentido é fundamental para organização da auto-estima.

Mário Quintana escreveu sobre o sentido das estrelas: 'que triste seriam os caminhos se não fosse a presença distante das estrelas'. Para descobrirmos as estrelas que guiam os caminhos, precisamos abandonar o ideal de sermos estrelas. Este ideal faz com que os caminhos fiquem escuros e com que as pessoas não consigam responsabilizar-se por seus passos.

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>> Dra. Simone Engbrecht ( Hotsite )
Psicóloga e Psicanalista
CRP 07/05555
 

* Matéria publicada neste site: 19.08.2007


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