Paciência
com os desejos
“É
muito cedo na vida que aprendemos a ter paciência.
Paciência em suportar a dor de que nem tudo se pode ter a
partir da ação e do alívio.”
Ao
brincarmos com as palavras e as escutarmos a partir de diferentes
associações, chegamos a antigas idéias com
a sensação de novas descobertas. Hoje, debitam-se
na conta da chamada ansiedade os motivos para fazermos ou deixarmos
de fazer muitas coisas. Refletindo, nos interrogamos sobre as causas
e efeitos deste mal-estar. Alguém ansioso, segundo o dicionário,
é alguém cheio de ânsia. E ânsia pode
significar angústia, assim como, desejo ardente. Compreendermos
que, quando a ansiedade está relacionada à angústia,
precisamos refletir sobre este sinal parece claro, mas associarmos
aos desejos a ansiedade parece um tanto nebuloso.
Em tempos onde o tempo parece faltar, desejar com ardor, com entusiasmo,
é confundido com a pressa em estar no futuro. Como se no
futuro pudéssemos deixar de nos preocupar. Na realização
dos sonhos, a sua arquitetura é fundamental. Os planos e
projetos trazem a segurança de uma construção.
Porém, quando a pré ocupação do futuro
faz com que o presente não seja ocupado, a ansiedade pode
ser um sinal de que algo não vai bem com o presente. Que
estamos querendo desocupá-lo com pressa. O desejo não
é pelo que está no futuro, mas de libertar-se do agora
ou do que já foi.
Paciência é a virtude de suportar a dor. A dor suportável.
Nos perguntaríamos então quanto de dor seria suportável.
A atualidade costuma empurrar as pessoas para os extremos. E há
uma confusão não somente em relação
à quantidade, mas entre o que seria suportável. Os
desejos ainda não realizados tornam-se dores insuportáveis
e os vícios acabam tornando-se formas de prazer. Suportar
a dor porque o maltrato consigo tornou-se um vício não
é uma virtude e nem sinal de paciência.
Diríamos que a paciência é buscada para suportar
a dor de perder algo. Ser paciente é esperar a vez, esperar
a sua vez. Ser paciente numa fila significa a dor de que não
somos os únicos no mundo. Esta é a dor suportável.
Suportamos esta dor com paciência, porque desejamos não
estar sozinhos. A ansiedade convive com a paciência, com a
dor da espera. Com a dor de que ainda não chegou o tempo
da realização de algo desejado. Quando a ansiedade
passa a associar-se à paciência, a pessoa não
alivia desejos, mas realiza sonhos. Uma diferença fundamental
para que o sentido da vida não seja solitário.
A
ansiedade e a paciência não conseguem conviver bem
quando algo da vida atual está insuportável. Quando
as pessoas dirigem na velocidade máxima não porque
tem pressa em chegar a algum lugar, mas porque não sabem
onde querem ir. Quando as pessoas se atropelam em supermercados
não porque têm pressa de chegar em casa, mas porque
não conseguem enxergar quem circula a sua volta.
É muito cedo na vida que aprendemos a ter paciência.
Paciência em ver com os olhos e não com as mãos.
Um passo importante na convivência em sociedade. Paciência
em suportar a dor de que nem tudo se pode ter a partir da ação
e do alívio.
A paciência de espera, a expectativa com os capítulos
seguintes da vida, o planejamento dos sonhos, não torna ninguém
passivo em relação à vida, porém mais
paciente com a sua ansiedade. Pode então escutar o que ela
quer dizer e desejar ardentemente o que a vida apresenta.
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Dra.
Simone Engbrecht ( Hotsite
)
Psicóloga
e Psicanalista
CRP 07/05555
Atuação
na área clínica com adolescentes e adultos em Porto
Alegre e São Leopoldo;
Autora dos livros: “Aprendendo a Lidar com a Depressão”
(2001) e “O Amor não é Surdo. Reflexões
sobre o Amor” (2008) da Editora Sinodal.
Mais
informações:
São
Leopoldo
Rua São Joaquim, 792 - Sala 604 - Centro
Porto Alegre
Rua Dona Laura, 354 - Sala 505 – Moinhos de Vento
Fones:
(51) 3589.5734 e 9803.7967
* Matéria
publicada na Revista Classic Life
Edição
nº 14 - MAR/ABR/MAI - 2009
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