
DISTÚRBIOS
DO SONO
Por que dormir?
O que é sono? O que é sonho? Essas perguntas, após
séculos de investigação, começam a ter
respostas científicas. Nos últimos quarenta anos a pesquisa
sobre sono armou-se de recursos poderosos e, atualmente, podemos registrar
e medir o sono. Mesmo assim, explicar completamente o destino desse
terço das nossas vidas ainda exigirá muita pesquisa.
Sabemos que o sono serve para repor reservas químicas do cérebro,
músculos e de outros órgãos com alta exigência
energética.
Sono
e sonho são estados da vida. Quando estamos acordados, em vigília,
podemos estar cuidando de nossa higiene, nos alimentando, trabalhando,
fazendo esporte. Esses são estados que a vigília nos
permite. Para cada atividade, usamos funções e habilidades
diferentes. O sono é um estado, não uma função.
Quando estamos dormindo executamos funções diferentes
daquelas da vigília. Antes as especialidades médicas
eram definidas pelo órgão que tratavam, como coração
ou pulmão. Depois, passaram a ser definidas por função,
como a endocrinologia. Mais recentemente, surgiram as especialidades
de estado, como a medicina do trabalho, do esporte e do sono.
Não
podemos medir o produto do sono, mas ao acordarmos dispostos pela
manhã, sabemos que ele foi bom, que se produziu reposição
de energia. Para se conhecer a função do sono usa-se
a privação de sono. Seria o mesmo que retirar um órgão
para observar o que acontece com o organismo. Em ratos, a privação
do sono faz com que comam cada vez mais e percam peso mesmo assim.
A morte ocorre em 21 dias, provavelmente pelo desequilíbrio
energético.
Dormir,
sonhar talvez
O sonho é um sono diferente. Enquanto o sono é passivo,
o sonho é ativo. O cérebro que estava desligado durante
o sono, semelhante ao coma, ferve em descargas, inunda-se de imagens,
sons, aromas, gostos e sensações. Os olhos que estavam
parados se movimentam rapidamente como na vigília. Esses movimentos,
em inglês “rapid eye movements”, dão o nome
ao estado, REM. O sonho nasce da combinação de emoções,
imagens desconexas e sensações inexplicáveis.
A emoção do sonho é perfeita. Ela nasce de estímulos
elétricos dentro do cérebro. Do sistema límbico,
do controle central das emoções. Surge sem relação
com as imagens. As imagens vêm da memória, do dia de
ontem, de anos atrás. A historieta do sonho é criada
depois. O sonhador tenta organizar da melhor maneira o turbilhão
de imagens e emoções. Cria uma história coerente
mas não consegue se livrar do clima de alucinação,
de loucura, já que a falta das noções de tempo
e espaço e a ausência de roteiro fogem ao entendimento.
Alguns artistas usam essas experiências para criar obras inesperadas.
Salvador Dali é o melhor exemplo.
Quem
se lembra de um pesadelo apavorante, não sabe explicar direito
por que sentiu tanto medo. Talvez nem recorde as imagens. Só
da sensação imensa, intensa, incontrolável, avassaladora
de medo. O mesmo pode se aplicar a sonhos eróticos. A excitação
é cálida, a estimulação febril, chega-se
ao orgasmo. As imagens, entretanto, são as de sempre, corriqueiras,
nada demais para provocar tamanho ardor. Evocar o enredo desse sonho
não trará de volta as abrasadoras sensações.
Transtornos
do sono: Apneias
Alguns transtornos do sono que todo mundo conhece são a insônia,
o sonambulismo, os pesadelos e o roncar. Menos conhecidos, a apneia
do sono e a síndrome das pernas inquietas, são problemas
comuns. Quando uma esposa descobre que seu marido está parando
de respirar várias vezes durante a noite, sua primeira ideia
é de que ele deve ser o único caso do mundo, que isso
deve ser raríssimo. Depois ela comenta com amigas, lê
reportagens sobre apneias do sono e percebe que a doença existe
e que outras esposas passam pelo que ela está passando. Descobre
que para ser chamada de apneia a parada respiratória deve durar
pelo menos 10 segundos. Que nos casos graves as apneias duram em torno
de 30 segundos, podendo chegar a dois, três minutos. Quando
são poucas, as apneias são difíceis de perceber.
Em geral, só os aparelhos da polissonografia detectam os casos
iniciais. Mesmo assim, existem aparelhos mais sensíveis que
identificam problemas respiratórios, antes de aparecerem as
apneias, antes mesmo de o sujeito começar a roncar, uma vez
que o ronco vem antes das apneias. De cada dez pessoas que roncam,
uma tem apneias.
Mesmo
sendo comuns, as apneias demoraram a ser consideradas doença.
Desde a Antiguidade já se falava de homens obesos, sonolentos
e roncadores. Um caso aparece no Ateneu dos gregos, há mais
de 2.000 anos. Em torno do ano 360 a.C., Dionísio, tirano de
Heracleia, sofria de sonolência e a dificuldade em despertar.
Dionísio era obeso, sua respiração laboriosa
e ruidosa durante o sono. O tratamento consistiu em agulhas finas
e longas que deveriam ser introduzidas até atingir um local
onde causassem dor e o despertassem, devolvendo-lhe a respiração.
As apneias
ocorrem quando há o fechamento total da garganta. A garganta
fecha porque os músculos relaxam. O sono é que faz os
músculos relaxarem. Se a garganta fechar só um pouco,
deixando o ar passar, existirá o ronco. Até o presente,
mais de uma dezena de estudos encontraram a síndrome das apneias
obstrutivas do sono, variando de um a dez por cento da população
de adultos, em diversos países. Se tanta gente tem apneias,
se é normal apresentar até 30 apneias por noite, então
a síndrome das apneias obstrutivas do sono é uma doença
banal, parecida com a acne? Comum, mas sem maiores consequências?
Ou será uma doença gravíssima?
A resposta
está no meio. Nem inócua, nem agudamente mortal, a síndrome
das apneias do sono cobra seu preço mais em qualidade de vida
do que em anos de vida. Em geral, o doente se adapta à doença
e sobrevive décadas, sofrendo. Apenas quando inicia o tratamento,
percebe que estava com seu desempenho bem abaixo do normal. O principal
sintoma é a sonolência que surge porque, para interromper
a apneia, a pessoa precisa despertar. Um despertar para cada apneia.
Sem despertar a pessoa não estaria viva.
O perigo
de morrer dormindo existe para os lactentes. Isso pode acontecer,
embora seja incomum. A síndrome da morte súbita do lactente
é definida como “a morte súbita de uma criança
de menos de um ano que permanece inexplicada após investigação
profunda, incluindo a realização de uma autópsia
completa, exame da cena da morte e revisão da história
clínica”. Em países desenvolvidos, onde são
raras as mortes por doenças infecciosas, essa síndrome
responde por um terço das mortes no primeiro ano de vida.
Algumas
apneias ocorrem em todos os lactentes durante o sono, mas terminam
por um despertar após alguns segundos, como no adulto. Apesar
de haver aumento de casos no inverno, não se confirmou a associação
da morte súbita do lactente com bronquiolite ou outras doenças
respiratórias.
Os episódios
de morte aparente representam a grande oportunidade de prevenção.
A criança é encontrada roxa, flácida e sem respirar.
Pode voltar a respirar pela estimulação dos adultos
que tentam ressuscitá-la. Ao chegar ao médico, a criança
poderá estar totalmente recuperada, com os sinais vitais estáveis.
O episódio é grave e não deve ser minimizado
ou considerado apenas um “susto”. Não se pode perder
essa oportunidade de investigar a saúde da criança e
de instituir a monitorização portátil de apneias.
Nos próximos meses, se nada se fizer, até 30 por cento
desses bebês poderão sofrer morte súbita.
A sonolência
é o sintoma da apneia do sono que mais deteriora a qualidade
de vida do adulto ativo. No início o sonolento dorme assistindo
televisão, lendo, conversando com as visitas. Mas não
se preocupa. Acha que os programas de TV andam repetitivos, que já
leu tudo que interessava e que a visita era monótona demais.
Então surge dificuldade de permanecer alerta no trabalho e,
depois, de dirigir por longos períodos em estradas retas. O
sonolento ao volante pode morrer e matar outros num acidente. Isso
torna a apneia uma doença contagiosa. Pior que a AIDS. Um perigo!
Apesar dos alertas dos especialistas em sono e de existir lei obrigando
os motoristas profissionais a terem seu sono avaliado, a sonolência
ao volante continua negligenciada pelas autoridades de trânsito.
Como bem sabemos, a revolucionária ideia do respeito à
lei ainda não prosperou por estas plagas.
Quando
as pernas não param
Pernas se agitam com ou sem conhecimento dos seus donos. O mesmo tipo
de movimento pode ocorrer nos braços. As contrações
tendem a ocorrer de forma rítmica. De 20 em 20 segundos, até
de 40 em 40 segundos. A cada contração, um breve despertar.
Em geral, o agitado não lembra de despertar nem percebe que
se movimenta. Quem poderá notar é o parceiro de cama,
se os movimentos forem frequentes e intensos. Alguns se acordam e
passam a ter insônia, muitos despertares. Outros desenvolvem
sonolência excessiva, mas bastante gente parece não sentir
qualquer problema de sono com os movimentos. Para conseguir o diagnóstico
deve-se fazer a polissonografia com eletrodos nas pernas.
Existe,
porém, uma doença em que a pessoa percebe que as pernas
não podem parar. É a síndrome das pernas inquietas.
Ocorre uma sensação desagradável, envolvendo
as pernas, difícil de descrever, principalmente, quando parado,
em geral deitado, esperando o sono. É difícil descrever
a inquietação. Eles usam termos como dormência,
formigamento, “repuxamento”, ou incômodo, mas também
dizem que não é nada disso. A aflição
só é aliviada movimentando, massageando ou estimulando
as pernas. Os pacientes descobrem técnicas de alívio,
como caminhar, esfregar, apertar as pernas, tomar banho quente ou
frio, aplicar álcool nas pernas. As técnicas funcionam
enquanto executadas ou por algumas horas. Um dos meus pacientes passou
décadas tomando banho e mantendo as pernas para fora das cobertas,
molhadas. Mesmo assim, a inquietação voltava. E lá
ia ele para o banho. Quatro, cinco vezes por noite.
As pernas
inquietas afetam entre cinco e dez por cento da população.
Pode começar na infância, mas aumenta com o avanço
da idade. Não há qualquer indício de problemas
psicológicos ou psiquiátricos nestes transtornos de
movimento, mas as pernas inquietas podem causar insônia grave.
Oitenta por cento das pessoas com pernas inquietas apresenta movimentos
periódicos na polissonografia. O tratamento também é
o mesmo. A causa, portanto, das duas moléstias pode ser a mesma.
Os movimentos
periódicos dos membros são raros na infância.
Começam na meia idade e vão aumentando de prevalência,
chegando a afetar um terço das pessoas acima de 60 anos. Entre
os pacientes com insônia, pode afetar de um a quinze por cento,
dependendo da idade. Podem existir diversos casos na mesma família,
sugerindo origem genética para o distúrbio. É
considerado normal, quando estamos adormecendo, sofrer um abalo muscular
às vezes violento, ao mesmo tempo em que sonhamos com uma queda.
Atribui-se a essa contração a expressão “cair
no sono”. Esse abalo não continua durante o sono e não
deve, portanto, ser confundido com os movimentos periódicos
dos membros. Outra confusão pode ocorrer quando a pessoa sofre
de apneias e se movimenta cada vez que acorda para respirar. Não
é raro que a mesma pessoa apresente os dois distúrbios.
Precisa-se, porém, da polissonografia para confirmar que os
movimentos periódicos dos membros ocorrem durante o sono e
não no momento do despertar da apneia.
Na polissonografia
se visualiza claramente as contrações das pernas. Cada
uma dura de meio a cinco segundos. Podem ocorrer em uma ou em ambas
as pernas, ao mesmo tempo ou separadamente. A soma dos movimentos
de toda a noite, dividida pelo número de horas de sono, resulta
no índice de movimentos por hora de sono. Considera-se anormal
mais de cinco por hora e grave mais de 50 por hora.
O que
é sono? O que é sonho? Ainda não se descobriu
tudo, mas já se sabe muito. Em resumo, o sono é complexo
e sujeito a vários distúrbios, mas todos têm diagnóstico
e tratamento. •
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Dr. Denis Martinez
Pneumologista - CRM 7262
Médico
do sono;
Mestre em Pneumologia;
Ph.D em Ciências Médicas - University of Toronto;
Fundador da Associação Brasileira de Sono e da Associação
Sul-Rio-Grandense de Sono;
Professor de Graduação e Pós-Graduação
da Faculdade de Medicina – UFRGS e Hospital de Clínicas
de Porto Alegre;
Quatro livros publicados e mais de 40 artigos publicados em revistas
médicas nacionais e internacionais e trabalhos apresentados
em congressos no Brasil e exterior;
Médico responsável pela Clínica do Sono.
Mais
informações:
Clínica do Sono
Rua Eudoro Berlink, 80
Bairro Moinhos de Vento
Porto Alegre - RS - Brasil
Tel.: 51 3022.2282
www.sono.com.br
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Matéria
publicada na Revista Classic Life
Edição
nº 15 - INVERNO - 2009
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