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A INDIVIDUALIZAÇÃO
DO TRATAMENTO ONCOLÓGICO







O tratamento do câncer mudou. Com o progresso da ciência, particularmente os estudos sobre o genoma humano e as alterações moleculares relacionadas ao câncer, foi possível avançar de forma significativa no entendimento dos mecanismos responsáveis pelo surgimento e desenvolvimento dos tumores malignos.

Esses novos conhecimentos foram fundamentais para que se chegasse à intimidade de cada tumor, revelando-se assim as suas características individuais. Em consequência, nesses últimos anos, as intervenções terapêuticas passaram a ser mais seletivas e dirigidas a alvos específicos e considerados relevantes para o crescimento tumoral.

Tomemos como exemplo o câncer de pulmão. Antigamente, praticamente todos os pacientes eram tratados com o mesmo esquema de quimioterapia. Notando-se que alguns indivíduos apresentaram melhores resultados do que outros, através das análises das biópsias pesquisadores descobriram que os tumores eram diferentes geneticamente e, portanto, requeriam tratamentos individualizados. Uma das alterações genéticas responsáveis pelo desenvolvimento desse tipo de tumor está relacionada a um gene conhecido como EGFR, que pode ser bloqueado de maneira eficaz por medicações que bloqueiam seletivamente essa via de sinalização, possibilitando que uma parcela significativa dos pacientes seja tratada de forma mais efetiva, prescindindo da quimioterapia e, consequentemente, de seus efeitos tóxicos.

Da mesma forma, esses avanços ocorreram no tratamento de outras formas de câncer, como a leucemia mieloide crônica, o câncer de mama, colorretal, linfomas e outros. Na leucemia mieloide crônica passamos a utilizar um medicamento mais seletivo denominado imatinib, em substituição a um esquema complexo e tóxico de quimioterapia. Algumas mulheres portadoras de câncer de mama expressam uma proteína específica (Cerb-B2), que foi associada ao curso mais agressivo da doença. Um anticorpo monoclonal que antagoniza o seu efeito, o trastuzumab, tem resultados terapêuticos marcantes nesse grupo de pacientes. Daí, a investigação da presença dessa proteína na superfície do tumor, possibilita que esse grupo específico de pacientes possa ser tratado com quimioterapia em combinação com o anticorpo, aumentando significativamente as suas chances de resposta e aumento de sobrevida.

Nas neoplasias de cólon e reto, a descoberta de uma medicação que bloqueia a sinalização pela via do receptor que se liga ao fator de crescimento epidérmico (EGF) parece útil no tratamento de pacientes cujos tumores apresentem o gene KRAS em sua forma selvagem. Isso também trouxe uma nova perspectiva para os pacientes portadores desse tipo de câncer. Além disso, o uso de anticorpos monoclonais que inibem a ação do fator de crescimento de endotélio vascular (VEGF), ou seja, que bloqueiam a angiogênese tumoral, tem sido útil nesses tipos de tumores em associação com a quimioterapia.


“Imagina-se que, num futuro não muito longínquo, o paciente com diagnóstico de câncer, ao procurar seu oncologista, receberá um tratamento baseado nas suas características individuais e nas características moleculares específicas do tumor que o acomete.”



Por várias décadas, o câncer de células renais e o câncer de fígado foram considerados resistentes aos tratamentos medicamentosos. Hoje, através do conhecimento da biologia molecular desses tumores, foi possível desenvolver vários agentes ativos nessas doenças. Personagens ilustres da nossa sociedade têm estampado as manchetes dos jornais como vítimas dessa tão temida enfermidade. A ministra Dilma Russef é um exemplo vivo da individualização do tratamento oncológico. Portadora de um linfoma não-Hodgkin, foi constatado que as células tumorais expressavam em sua superfície uma proteína denominada CD 20, alvo específico de um anticorpo monoclonal denominado rituximab, que aumenta as chances de cura da doença quando associado à quimioterapia, sem aumento significativo da toxicidade do tratamento.

É importante lembrar que os temidos efeitos colaterais da quimioterapia, tais como náuseas, vômitos e diminuição das células de defesa, são hoje mais bem controlados com novos medicamentos. Isso fez com que a qualidade de vida dos pacientes melhorasse consideravelmente.

Vale ressaltar, também, o papel fundamental da pesquisa básica e clínica nos avanços da oncologia. A primeira estuda as células tumorais em laboratório, entendendo de forma mais complexa os estímulos que induzem a multiplicação e imortalização dessas células, tentando desenvolver novos instrumentos capazes de bloqueá-los. Quando se tem êxito nesse cenário, estuda-se as drogas em animais de laboratório e, posteriormente, em pequenos grupos selecionados de pacientes, para só então testá-los em grupos maiores. É nesse contexto que surge a pesquisa clínica, modalidade de investigação em seres humanos que busca preencher lacunas do conhecimento atual através da utilização de novos tratamentos. Esse método possibilita que os potenciais tumorais e toxicidades dos novos medicamentos possam ser identificados. Assim, os participantes podem auxiliar no desenvolvimento de novos conhecimentos de suma importância para as novas gerações. Essa é única forma de assegurarmos que uma nova terapia possa chegar ao uso de rotina com mais segurança.

Em nosso estado, a pesquisa clínica se faz presente em diversos hospitais, tornando-se cada vez mais acessível a toda a população. Os estudos clínicos são desenhados para grupos específicos de pacientes, que só podem receber essas drogas sempre que atenderem os critérios pré-determinados para a sua inclusão.

Em resumo, há grandes progressos no conhecimento e na terapêutica do câncer. Entretanto, temos ainda um longo caminho a percorrer, pois inúmeros mecanismos envolvidos no crescimento das células malignas precisam ser desvendados. Imagina-se que, num futuro não muito longínquo, todo o paciente com diagnóstico de câncer, ao procurar seu oncologista de confiança, receberá um tratamento baseado nas suas características individuais e nas características moleculares específicas do tipo de tumor que o acomete. •


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Dra. Helena Rodrigues de Andrade
Médica oncologista clínica
CRM 26339

Formada pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul/PUCRS;
Residência médica em oncologia clínica pela PUCRS;
Mestranda em Genética e Toxicologia aplicada pela Universidade
Luterana do Brasil.

Mais informações:

Instituto de Oncologia Kaplan
Rua Olavo Bilac, 805 - Bairro Santana
Porto Alegre/RS

Tel.: 51 3333.7933 / 3012.7933

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* Matéria publicada na Revista Classic Life
Edição nº 19 - INVERNO - 2010

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