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TRANSTORNO de HIPERATIVIDADE
com Déficit de Atenção

O Transtorno de Hiperatividade com Déficit de Atenção (THDA) é um problema de saúde mental muito comum em crianças em idade escolar, seguidamente não diagnosticado e ainda envolto em muito preconceito. O THDA é uma doença que se inicia na infância, muitas vezes persistindo durante toda a vida, e que causa grande impacto na vida destas pessoas, bem como na de seus familiares e amigos.

Os sintomas principais da THDA incluem a desatenção, a hiperatividade e a impulsividade. Crianças com THDA podem apresentar problemas funcionais importantes, como dificuldades escolares, baixo rendimento acadêmico, dificuldade de relacionamento com familiares e com outras crianças e baixa auto-estima. O desconhecimento da doença leva à falsa impressão, por parte de alguns, de que o THDA ocorre devido à educação mais liberal ou pela falta de disciplina em casa e que o tratamento “à moda antiga” (em bom português, uma boa chinelada) é o indicado para estas crianças. O THDA não é, em absoluto, um problema moral. Diversos estudos científicos comprovam que o aumento de disciplina em casa e na sala de aula, se não for associado a outras alternativas de tratamento, é capaz mesmo de levar a piora do comportamento.

O THDA é uma doença ainda relacionada com muito preconceito, sendo que muitas vezes pais e professores referem que seus filhos/alunos são “burros”, “bagunceiros” ou “preguiçosos”. Isto está longe de ser verdade. Além disto, o preconceito e desconhecimento da doença pioram ainda mais a baixa auto-estima das crianças e dificultam o aprendizado e os relacionamentos inter-pessoais. Na realidade, estas crianças apresentam, na maioria dos casos, inteligência normal ou mesmo acima da média e tentam se esforçar para prestar atenção na escola e ficar quietas em casa.

O THDA não é uma doença específica da infância. Diversos estudos científicos comprovam que os sintomas eventualmente persistem por toda a vida. Estima-se que aproximadamente 70% das pessoas ainda apresentam as manifestações durante a adolescência e 15 a 50%, na vida adulta. Anteriormente, acreditava-se que o THDA desaparecia na adolescência. As manifestações da doença se modificam com a idade, ficando mais interiorizados, socializados. Os sintomas de hiperatividade diminuem com o decorrer dos anos – com a persistência da inatenção. Isto não significa, contudo, que a doença não mais exista e que não há mais necessidade de tratamento. Seguidamente, quando o diagnóstico de uma criança é feito, um dos pais é capaz de se identificar com as queixas do filho, recordando apresentar os mesmos sintomas na infância e na adolescência. Conversando com estes adultos, percebe-se muitas vezes maiores dificuldades de organizar tarefas domésticas e no trabalho, dificuldades de relacionamento inter-pessoal (com os filhos e parceiros, com relato freqüente de divórcio), menor capacidade de realizar trabalhos independentes, sem supervisão, com aquisição mais lenta de capacidades ocupacionais, cognitivas e educacionais. Além disto, o risco de dependência de álcool e de drogas é maior entre adultos com THDA não tratados (enquanto que pessoas tratadas apresentam menor incidência de dependência do que a população geral).

Na medida em que foi se conhecendo melhor a evolução e as características do THDA, foi possível a elaboração de critérios clínicos para o seu diagnóstico. Os critérios atualmente aceitos foram desenvolvidos pela Associação Americana de Psiquiatria, publicados no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, em 1995. A partir de informações de pais, familiares e professores, com base nestes critérios, o THDA pode ser diagnosticado em crianças e em adultos de modo bastante confiável. O início dos sintomas ocorre geralmente antes dos 7 anos, podendo ocorrer casos em que não sejam verificados antes dos 12 anos. Suas características básicas são a desatenção (mudança muito freqüente de atividade), a hiperatividade (excesso de atividade ou movimento em situações nas quais se espera calma) e a impulsividade (conduta muito precipitada e rápida).

OS SINTOMAS DE DESATENÇÃO
são geralmente descritos como:

• Não prestar atenção em detalhes e cometer erros por falta de cuidado;
• Ter dificuldade de manter a atenção em determinadas tarefas, sobretudo as que sejam mais monótonas e repetitivas;
• De vez em quando, parecer não escutar quando chamado, com a “cabeça no mundo da Lua”;
• Não seguir instruções de pais e professores e não acabar as tarefas pedidas;
• Ter atitude desafiante ou de oposição quando lhe é pedido algo;
• Ter dificuldade em organizar, planejar as tarefas propostas;
• Não gostar e evitar fazer tarefas (ou faz contra a sua vontade) que exijam esforço mental mantido;
• Perder objetos importantes;
• Distrair-se facilmente, com coisas que não tem a ver com o que esta fazendo no momento;
• Esquecer compromissos e tarefas.


OS SINTOMAS DE HIPERATIVIDADE
se manifestam do seguinte modo:

• Mexer continuamente com os pés ou com as mãos, quando parado;
• Não conseguir ficar sentado por muito tempo;
• Não ficar parado e sair correndo e pulando (em situações que se espera que fique quieto) ou sentir sensação de inquietude quando não conseguir sair;
• Ter dificuldade de manter a atenção e ser muito barulhento quando brinca ou joga;
• Ser muito agitado, agir sem pensar nas conseqüências;
• Falar demais.

JÁ A IMPULSIVIDADE
se caracteriza pelos seguintes sintomas:

• Responder perguntas antes de terem sido acabadas;
• Ter dificuldade de esperar a sua vez;
• Intrometer-se nas conversas ou em brincadeiras dos outros, sem ter sido convidado.

Nem todas as crianças têm todas manifestações mencionadas acima, mesmo assim o diagnóstico pode ser feito em pessoas que não tenham todos os sintomas. Além disto, a maioria das crianças com THDA consegue permanecer sentada e quieta quando jogam video-game ou assistem a programas de televisão. Isto ocorre porque quando a motivação do indivíduo é grande, consegue-se permanecer maior tempo concentrado. Por outro lado, a maioria das pessoas apresenta estes sintomas eventualmente, em grau menor.

O que diferencia as pessoas com THDA é que estes sintomas ocorrem na maior parte do tempo e interferem bastante com a capacidade funcional destes. Outro ponto importante é que os sintomas devem estar presentes em mais de um lugar, ou seja, no caso de crianças e de adolescentes, em casa, na escola e jogando com os amigos. Desta forma, não se considera que uma criança com problemas de atenção e inquietação somente em casa, devido a problemas de relacionamento familiar, como portadora de THDA. Muitas vezes, os sintomas de THDA não se manifestam em ambientes bem estruturados, calmos e sem as exigências e distrações que ocorrem em casa e nas salas de aula – como, por exemplo, no consultório médico. As pessoas com THDA são conhecidas por suas “inconsistências”. Num dia são capazes de fazer muito bem determinada atividade, enquanto que em outro dia, não mais conseguem. Têm dificuldade de lembrar de fatos simples, mas apresentam memória excelente para assuntos mais complexos. O THDA freqüentemente ocorre em associação com transtorno de conduta, depressão, ansiedade e com muitas doenças do desenvolvimento, como dificuldade de fala e de linguagem e com dificuldade de aprendizado. Nem todos os pacientes com THDA apresentam o mesmo quadro. Isto porque a doença apresenta variações em sua apresentação.

EXISTEM 3 TIPOS de THDA, a saber:

THDA com predomínio dos sintomas de desatenção: crianças com este tipo apresentam predomínio dos sintomas de desatenção com poucos (ou mesmo, nenhum) sintomas de hiperatividade e impulsividade. É o tipo que parece ser mais comum entre as meninas. Manifesta-se por dificuldade importante de aprendizado.

THDA com predomínio dos sintomas de hiperatividade e impulsividade: as crianças que apresentam este tipo, pelo contrário, têm muitos sintomas de hiperatividade e impulsividade, com sintomas de desatenção raros ou mesmo ausentes. Este tipo está associado com alterações de comportamento e com dificuldades de relacionamento.

THDA do tipo combinado: as crianças apresentam tanto sintomas de desatenção como de hiperatividade e impulsividade, associados.

É um problema importante de saúde pública, uma vez que afeta aproximadamente de 5% a 9% das crianças e adolescentes em idade escolar. Acreditava-se inicialmente que a THDA fosse mais comum entre os meninos. Com a revisão dos critérios pela Academia Americana de Psiquiatria, tem crescido o número de casos entre as meninas. No sexo feminino há maior número de casos de THDA com predomínio de sintomas de desatenção. Isto possivelmente explicaria o menor número de casos diagnosticados entre as meninas, uma vez que estas crianças não perturbam tanto em sala de aula e passam desapercebidas dos seus pais e professores.

Na maior parte dos casos, não são necessários outros exames para se estabelecer o diagnóstico. Estudos científicos envolvendo exames como EEG e mapeamento cerebral e tomografia por emissão de fóton (SPECT) estão em andamento, mas não existem dados conclusivos sobre a sua importância no diagnóstico e tratamento da doença.

Após definir o diagnóstico de THDA, muitos pais se perguntam o que houve de errado. Nunca é demais destacar que o THDA é uma doença biológica, que não é causada por problemas de educação dos pais e dos professores. Não existe causa única definida para o THDA. A transmissão hereditária da doença foi demonstrada em diversos estudos familiares. Estima-se que filhos de pais com THDA têm probabilidade de até 50% de desenvolverem a doença. Entre os fatores não genéticos, evidências apontam para a participação de diversas complicações pré e perinatais, como, por exemplo, o consumo materno de álcool e de outras drogas, tabagismo materno, baixo peso ao nascimento, atraso de desenvolvimento e outras lesões cerebrais que repercutem negativamente no controle cerebral de atividades relevantes. Ainda não foi possível definir com exatidão em que local do cérebro estaria a lesão ou que seria responsável pela doença, embora existam evidências de lesões comprometendo o córtex pré-frontal direito, os núcleos da base (núcleo caudado e globo pálido) e algumas regiões do corpo caloso. Acredita-se que estas áreas são responsáveis pela inibição e pelo controle de comportamentos impulsivos e que sejam pouco ativas nestas pessoas.

Medicações estimulantes são capazes de normalizar a função estas áreas. O tratamento do THDA deve sempre se realizado por uma equipe multidisciplinar, que deve envolver médico neuropediatra ou neurologista, pediatra ou psiquiatra com experiência no tratamento de crianças com a patologia, bem como psicólogo e psico-pedagogo. Obviamente, o tratamento também envolve os pais da criança e seus professores. Um dos passos mais importantes do tratamento é o reconhecimento precoce da doença, para diminuir o impacto negativo da mesma no aprendizado e nos relacionamentos da criança.
Outro passo fundamental no tratamento é o esclarecimento dos pais e dos professores. A orientação evita que os mesmos tenham noções equivocadas sobre a doença, corrigindo preconceitos e evitando o uso de rótulos – como o de “burro”, “mal-educado”, “preguiçoso”, “tinhoso”, “espoleta”, “bicho carpinteiro”. A conversa franca com o médico possibilita aos pais diminuir suas dúvidas e preocupações sobre vários aspectos da doença. Tanto pais como professores devem receber esclarecimentos sobre a natureza da doença, suas repercussões no comportamento e no aprendizado, sobre suas manifestações essenciais, sobre os problemas que podem ocorrer em associação, sobre as necessidades educativas e sobre a evolução da doença.

Sabe-se que portadores de THDA geralmente necessitam de grande esforço para produzir os mesmos resultados das demais pessoas. A orientação simplória de que uma pessoa com THDA deve “se esforçar mais” – quando, na realidade, está já fazendo o seu melhor empenho – é extremamente prejudicial para a evolução da mesma, uma vez que aumenta consideravelmente o grau de ansiedade e piora o seu desempenho. Uma das técnicas mais efetivas, desde que bem empregada, para a modificação de comportamento é o chamado reforço positivo, que se baseia no estímulo de comportamentos e atitudes adequadas, elogiando a criança toda vez que fizer algo conforme foi orientado e solicitado, ao invés de punir e castigar comportamentos não desejados. Seguidamente, pessoas com THDA necessitam de ambiente especial para seu aprendizado e trabalho, além de maior tempo para a realização de atividades, revisões periódicas com conteúdo diretamente com o professor, consistência e rotina no ambiente.

Considerando que as manifestações da doença são variáveis, estas necessidades mudam caso a caso. Pessoas com THDA tendem a ter pior desempenho em situações de estresse elevado, como ocorre, por exemplo, com atividades com tempo limitado. Esta característica deve ser compreendida pelos professores, podendo se permitir maior tempo para a realização de tarefas. Pelas recomendações feitas acima pode parecer, à primeira vista, que crianças podem usar o THDA como “desculpa”. Isto está longe de ser verdade. O THDA é um desafio para estas pessoas, não uma desculpa. As medicações auxiliam a corrigir as alterações bioquímicas que provocam os sintomas e as modificações do ambiente possibilitam melhores oportunidades de adaptação. Guardadas as proporções, seria o mesmo que esperar que uma pessoa paraplégica, em cadeira de rodas, seja capaz de descer uma escada sem rampa.

Na maioria dos casos, as crianças necessitam de acompanhamento psicoterápico. O terapeuta pode trabalhar tanto aspectos de aprendizagem e de comportamento, como aliviar os sintomas de ansiedade, depressão e baixa-estima. Algumas das crianças também precisam de acompanhamento psicopedagógico para o tratamento de dificuldades de aprendizado, através de reconstrução de habilidades e de conteúdos. O professor também tem papel fundamental nestes casos. Um dos maiores medos de pais com filhos portadores de THDA refere-se ao uso de medicação. Existe a crença de que estas medicações possam deixar a pessoa dependente ou como “zumbi”. Isto não é verdade. Estes efeitos não ocorrem, sobretudo nos casos em que o diagnóstico é bem feito e em que as medicações são adequadamente usadas em doses apropriadas. Diversos medicamentos podem ser usados no tratamento do THDA, entre eles os estimulantes (como o metilfenidato) e os anti-depressivos (como a imipramina e a nortriptilina). Outras medicações, como, por exemplo, carbamazepina, clonidina, buspirona, podem também ser eficazes em alguns pacientes. O tratamento deve ser adaptado às necessidades individuais de cada pessoa, seguindo a orientação do médico.

Caso queira se informar melhor sobre o THDA, existe um portal na internet da Associação Brasileira de THDA, bastante interessante e de fácil acesso para todos: www.dda.med.br


Dr. Fernando Gustavo Stelzer

Neurologista – CRM RS 25.831
Fone: (51) 3592.7678

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