Remédios
caros, pacientes pobres
Um dos
maiores desafios da prática médica, atualmente, é
compatibilizar o preço do tratamento prescrito e as condições
financeiras do paciente. Muitas vezes, feito o diagnóstico,
a dificuldade para a compra do medicamento pode ser um problema até
maior do que o problema clínico que levou o paciente ao médico.
É claro que esse fator é muito mais significativo nos
casos de consultas através do SUS ou de convênios, nos
quais o paciente não paga a consulta mas, freqüentemente,
não consegue comprar o remédio. Todos sabem que os medicamentos
fornecidos pelo SUS não conseguem suprir a demanda e, mesmo
cumprindo papel de fundamental importância, não conseguem
aliviar o problema.
Esta questão está relacionada ao baixo poder aquisitivo
de grande parte da população do Brasil, mas não
é um problema só dos brasileiros. Mesmo em países
como os Estados Unidos existem dificuldades porque os medicamentos,
em todo mundo, tem o seu preço desproporcionalmente caro. Em
países desenvolvidos, planos de saúde que dão
cobertura para compra de medicamentos estão revendo seus contratos
e isso tem gerado muita polêmica, especialmente entre os mais
idosos que, aposentados, têm sua renda diminuída e não
podem interromper o uso da medicação, utilizada para
problemas crônicos.
Por mais que se entenda que o comércio de medicamentos tem
regras iguais a de outros segmentos, ou seja, existem custos de pesquisa,
produção e comercialização que precisam
ser repassados ao consumidor, ainda assim é crucial que, no
mundo todo, seja feita uma reavaliação dessa atividade.
Existem milhares de remédios produzidos e vendidos e que não
têm qualquer valor terapêutico. Se esses medicamentos
fossem retirados do mercado não haveria um só caso de
morte ou sofrimento que pudessem ser atribuídos à sua
falta. Esses medicamentos oneram o cidadão na medida em que
exigem maiores esforços de fiscalização e isso
acaba causando aumento de impostos e aumento no preço final.
Da mesma forma, para vencer a concorrência, as empresas gastam
milhões em propaganda, mas esses milhões são
pagos pelo consumidor. Os médicos recebem, diariamente, grandes
volumes de propaganda que também têm custos pagos pelo
consumidor.
Talvez uma forma de tentar amenizar o problema fosse permitir que
profissionais da área da saúde opinassem de forma decisiva
com relação ao comércio de medicamentos no país.
Ainda que sendo um ramo de atividade regulamentada, esse tipo de comércio
precisa de regras mais humanizadas. Nesse caso, o lucro, necessário
em qualquer empresa, precisa estar adequado ao grau de importância
social do empreendimento. Medicamentos caros são uma forma
cruel de subjulgar milhares de pessoas que, sem opção,
têm de escolher entre a miséria ou a morte.
Reduzindo o gasto com supérfluos, abrandando a carga tributária,
diminuindo a propaganda que tenta convencer médicos a prescreverem
e pacientes a usarem os medicamentos, poderemos pensar em redução
de custos de remédios. Afinal, os médicos devem aprender
sobre medicamentos em publicações científicas
e não em portifólios promocionais. Os pacientes devem
usar o remédio receitado pelo médico e não aquele
que aparece na televisão. O governo poderia abrir mão
de uma parcela de seus impostos para desonerar o contribuinte. Não
me parecem medidas impossíveis se houver, decididamente, vontade
de executá-las.
Dr.
Marcus Vinícius Netto
Pneumologista - CREMERS 10214
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