FEBRE REUMÁTICA
1. O que é a Febre Reumática?
É uma doença inflamatória que pode comprometer
as articulações, o coração, o cérebro
e a pele de crianças de 5 a 15 anos.
2.
O que causa a Febre Reumática?
A Febre Reumática é uma reação a uma
infecção de garganta por uma bactéria conhecida
como estreptococo. Essa infecção de garganta é
caracterizada clinicamente por febre, dor de garganta, caroços
no pescoço (gânglios aumentados) e vermelhidão
intensa, pontos vermelhos ou placas de pus na garganta. A criança,
geralmente maior de 3 anos de idade, poderá apresentar a
infecção de garganta como qualquer outra criança
e, geralmente, uma a duas semanas depois começa a apresentar
as queixas da Febre Reumática.
3.
Qualquer criança que tem infecção de garganta
pode apresentar Febre Reumática?
Não. Somente aquelas com predisposição para
apresentar a doença. Inúmeras crianças apresentam
freqüentes infecções de garganta, especialmente
nos primeiros anos de vida, porém isto não é
suficiente para predispô-las a apresentar a Febre Reumática.
A predisposição necessária para apresentar
a doença é herdada dos pais e já nasce com
a criança.
4.
Quais são as manifestações da Febre Reumática?
A manifestação mais freqüente é a artrite
que se caracteriza por dor intensa, que dificulta o caminhar, e
por inchaço e calor discretos. As articulações
mais acometidas são os joelhos e tornozelos. É comum
a dor e as outras alterações passarem de uma articulação
para outra permanecendo de 2 a 3 dias em cada uma. A simples presença
de dor em uma ou mais articulações ou nas pernas e
sem as outras alterações (inchaço e calor),
não é um sinal da doença. A segunda manifestação
da Febre Reumática é o comprometimento do coração
( cardite ) caracterizado por inflamação nas três
camadas (na membrana que o reveste, no músculo e no tecido
que recobre as válvulas). Clinicamente nós identificamos
esse comprometimento pelo sopro cardíaco, pelo aumento da
freqüência dos batimentos do coração e
pelas queixas de cansaço e batedeira aos esforços.
Este é o comprometimento mais importante porque pode deixar
seqüelas e limitar a vida do paciente. A terceira manifestação
é a Coréia que se caracteriza por fraqueza nos braços
e pernas, por sensibilidade emocional (a criança se torna
mais irritada e chorona) e por movimentos dos braços e pernas
que pioram quando a criança fica tensa e desaparecem durante
o sono. É importante saber que esta manifestação
da febre reumática pode vir isolada (sem a artrite e/ou cardite)
e meses após o quadro da infecção de garganta.
5.
A criança com Febre Reumática sempre tem febre?
Não. Embora o nome seja sugestivo nem todas as crianças
apresentam febre como manifestação da doença.
Ela aparece com maior freqüência durante a infecção
de garganta e não necessariamente quando ela começa
a apresentar as manifestações da Febre Reumática.
6.
Como se faz o diagnóstico da Febre Reumática?
Através das queixas que a criança vem apresentando
nos últimos dias, ou seja, da presença de dor e inchaço
nas articulações, do sopro cardíaco e/ou da
coréia associada às alterações nos exames
de sangue que podem comprovar a presença de inflamação:
velocidade de hemossedimentação (VHS), proteína
C reativa (PCR) e alfa glicoproteína. A presença de
infecção de garganta antes do início das alterações
articulares ou cardíacas é muito importante para o
raciocínio do médico que poderá comprová-la
através da dosagem da anti estreptolisina O (ASLO).
7.
A ASLO dá o diagnóstico de Febre Reumática?
Não. Ela é um anticorpo que o nosso organismo produz
para combater o estreptococo durante ou logo após uma infecção
de garganta. Portanto, ela serve apenas para nos dizer se a criança
teve infecção por esta bactéria. Na ausência
das manifestações típicas da Febre Reumática
a ASLO não tem qualquer valor para o diagnóstico desta
doença. Oitenta por cento das crianças com infecção
de garganta pelo estreptococo apresentam elevação
da ASLO porém somente 3% delas poderão apresentar
Febre Reumática. É importante lembrar que a presença
de dor nas pernas e ASLO elevado não significam febre reumática.
8.
Como se trata a Febre Reumática?
O primeiro passo logo que se suspeita desta doença é
tratar a infecção de garganta mesmo que ela tenha
acontecido 2 ou 3 semanas atrás e isto deve ser feito com
a penicilina benzatina em uma única aplicação
na dose de 600.000 unidades para crianças com menos de 25
kg e 1.200.000 unidades para aquelas com 25 kg ou mais.
O segundo passo é tratar a artrite com antiinflamatório
não hormonal como o ácido acetil salicílico
(AAS) na dose de 80 a 100 mg/kg/dia por 4 a 6 semanas. Para o tratamento
do comprometimento do coração se utiliza o corticóide
na dose de 1 a 2 mg/kg/dia por 6 a 8 semanas e para o tratamento
da Coréia o haloperidol ou o ácido valpróico
até os movimentos cessarem.
Embora estas etapas sejam muito importantes no tratamento da criança
com Febre Reumática a medida que poderá fazer a diferença
na evolução do paciente é o que chamamos de
profilaxia secundária, ou seja, a administração
da penicilina benzatina nas doses acima referidas a cada 3 semanas
(21 dias) para evitar que a criança tenha novos surtos da
doença.
Outro aspecto importante no tratamento das crianças com Febre
Reumática é o repouso que deverá ser individualizado
para cada paciente. Logo que se faz o diagnóstico desta doença
se orienta a família para manter a criança em casa
(fora da escola) em repouso relativo (evitar brincadeiras na rua
ou no playground) por pelo menos 15 dias para podermos avaliar a
intensidade das manifestações. Se a criança
apresentar cardite importante ela deverá fazer repouso no
leito por pelo menos 2 a 3 semanas até podermos avaliar a
melhora clínica e dos exames laboratoriais. Se não
houver o comprometimento do coração ela poderá
retornar à escola após os 15 dias porém ainda
evitar as brincadeiras de rua. A dispensa da educação
física deverá durar de 2 a 3 meses.
9.
Por quanto tempo ela terá que tomar a penicilina?
Se durante o surto a criança não apresentou comprometimento
do coração deverá ser até os 18 anos
ou por no mínimo 5 anos caso seja um adolescente; entretanto,
se a criança apresentou cardite ela poderá ter que
faze-lo até os 25 anos ou por toda a vida, dependendo da
gravidade do quadro.
10.
Quais as complicações que a criança pode apresentar
se tomar a penicilina por muito tempo?
O maior inconveniente desta medicação é a dor
no local da aplicação. Não há qualquer
efeito indesejável para o crescimento, para o esmalte dos
dentes ou mesmo para os ossos da criança com o uso da penicilina
por vários anos. Também não se tem observado
resistência da bactéria (estreptococo) com o uso prolongado
desta medicação.
11.
E quanto a alergia à peniclina?
Felizmente a alergia à peniclina é muito rara, em
torno de 1,5% a 3% em todas as idades. Na criança com menos
de 12 anos as reações graves, como o choque anafilático,
são mais raras ainda, estando na faixa de 0,7%. Portanto
o medo que muitas famílias têm em utilizar esta medicação
é infundado. Há alguns anos era comum os farmacêuticos
fazerem um teste nas crianças para avaliarem se eram alérgicas
ou não à penicilina. Em muitos casos o diagnóstico
de alergia era feito por causa de uma reação vermelha
que aparecia no local do teste. Este procedimento foi proibido porque
era realizado de maneira errada. Os farmacêuticos utilizavam
a própria penicilina que não é adequada para
a realização do teste e além disso por ser
irritante para a pele ela pode ocasionar a vermelhidão sem
que isso signifique alergia. Desse modo muitas crianças deixaram
de se beneficiar deste tratamento por um diagnóstico errado
de alergia à penicilina.
12.
Qual o problema se a criança tiver mais de um surto de Febre
Reumática?
A chance dela apresentar o comprometimento do coração
vai aumentando na medida em que outros surtos vão aparecendo
assim como um importante agravamento deste comprometimento podendo
ser necessária cirurgia para troca da valva cardíaca.
Ou seja, a cada surto novo de Febre Reumática o coração
irá piorar.
13.
A retirada das amígdalas pode melhorar a Febre Reumática
ou impedir que criança tenha outros surtos?
Não. Isto porque a criança poderá continuar
tendo infecções pela mesma bactéria nas paredes
da garganta mesmo na ausência das amígdalas.
14.
Não existe uma vacina para evitar estas infecções
ou a Febre Reumática?
Ainda não, mas acreditamos que muito breve isto será
possível graças ao esforço de grupos de pesquisa,
inclusive do Brasil, que continuam trabalhando com este objetivo.
>> Fonte:
Sociedade Brasileira de Reumatologia
www.reumatologia.com.br
* Matéria
publicada neste site: 01.03.2007
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