TRANSTORNOS DO COMPORTAMENTO
ALIMENTAR NA INFÂNCIA
Sabe-se que alimentação e nutrição equilibradas
são peças chaves para o crescimento e desenvolvimento
de uma criança saudável. Atualmente vive-se dentro de
uma realidade onde temos pouco tempo para nos dedicarmos adequadamente
aos nossos filhos. A cada dia aumenta o número de crianças
matriculadas em tempo integral nas escolas fazendo com que os pais
passem a participar cada vez menos da rotina e alimentação
de seus filhos. Devido a esta pouca participação, cada
vez mais crianças vêm apresentando transtornos alimentares.
Dentre
os mais citados, a anorexia é a mais comum, desenvolvendo-se
em três principais variações:
Anorexia
comportamental: consiste basicamente
em a criança se recusar a comer, tornando o alimento ou o ato
da alimentação uma forma de chamar a atenção
dos pais e suprimindo suas carências afetivas;
Anorexia orgânica:
neste caso existe deficiência de micro nutrientes ou propriamente
elementos traços, como o ferro e o zinco, fazendo com que a
criança não tenha apetite. Quando suplementados estes
elementos, a criança volta a se alimentar normalmente;
Anorexia nervosa:
igual à patologia da fase adulta, o quadro se caracteriza pela
criança não se alimentar devido ao medo de engordar
e tornar-se gorda. Existe distorção da imagem corporal,
nítido apavoramento diante da comida e ingestão de pouca
ou nenhuma quantidade de alimento. Este tipo é o mais perigoso,
precisando de tratamento psiquiátrico, clínico e nutricional.
Apesar
de diferentes causas, todos os tipos de anorexia acarretam ao organismo
os mesmos problemas, que são atraso no desenvolvimento cognitivo
e do crescimento, desnutrição ponderal (de peso), desnutrição
estatural, desnutrição pôndero-estatural (tanto
déficit de peso como de estatura), tornando estas crianças
mais “baixinhas” e “magrinhas” para sua idade
biológica.
Além
das anorexias propriamente ditas, ainda existe a pseudo-anorexia que
se caracteriza por uma dificuldade na mastigação ou
deglutição fazendo com que a criança se alimente
de forma insuficiente. Estas dificuldades podem se dar por causa de
aftas, fissuras e estomatites. Outro tipo de pseudo-anorexia é
aquela em que a criança come pouco na opinião dos familiares,
mas apresenta crescimento e desenvolvimento normais. Neste caso, os
pais não devem se preocupar.
Excluindo-se
a anorexia, ainda têm-se os seguintes transtornos do comportamento
alimentar:
Seletividade
alimentar: a criança normalmente
rejeita alimentos como verduras e frutas, ingerindo apenas massas,
pães ou outros tipos de alimentos. Neste caso a criança
não apresenta déficit de crescimento ou baixo peso,
provavelmente só deficiência de micro nutrientes (vitaminas
e minerais) por não ingerir frutas e verduras. A seletividade
alimentar também se pode dar pela maneira de preparo, onde
a criança come apenas ovo quando frito, senão não
come, por exemplo. A busca pelo tratamento se dá na maioria
das vezes pelas dificuldades sociais que surgem, como participar de
comemorações que incluem comida e dormir na casa de
amigos.
Bulimia nervosa:
assim como nos adolescentes e adultos se caracteriza por uma grande
ingestão de alimentos em um período curto de tempo,
seguido de um método compensatório, seja ele uso de
laxantes, indução do vômito, jejuns prolongados
ou prática de exercícios físicos extenuantes
como medidas de controle de peso. Este tipo de transtorno ocorre nas
crianças que estão mais próximas da fase da adolescência
e não tanto nas crianças pré-escolares.
Transtorno
da compulsão alimentar periódica:
este é um transtorno alimentar semelhante à bulimia
nervosa. Todavia não existe utilização de métodos
compensatórios para controle de peso. Normalmente, as crianças
são obesas e os episódios de compulsão alimentar
devem ocorrer pelo menos duas vezes por semana durante três
meses para se ter diagnóstico positivo. Algumas características
que devem estar associadas ao episódio de compulsão
alimentar são: comer muito mais rápido do que o normal;
comer ate se sentir desconfortavelmente empanturrado; comer grandes
quantidades de comida, mesmo sem fome; comer sozinho, com vergonha
da quantidade; sentir-se culpado ou deprimido depois do episódio.
Assim como a bulimia e a anorexia nervosa, este tipo de transtorno
é mais comum na adolescência, mas pode aparecer na infância.
Disfagia funcional:
o termo disfagia significa dificuldade para deglutir. Nesta situação,
a recusa alimentar está relacionada com o medo de engolir,
engasgar e vomitar, e não à preocupação
com o ganho de peso. Em algumas situações, pode-se desencadear
após situações traumáticas, como experiências
dolorosas em exames de endoscopia ou engasgos prévios.
Pica: este transtorno
é bastante comum em crianças que possuem algum déficit
cognitivo, porém qualquer criança pode desenvolvê-lo.
Neste caso a criança não tem aversão à
comida. Ela ingere substâncias consideradas não nutritivas
como terra, tijolo, tinta, cabelos, fezes de animais, areia, insetos,
folhas, pedras, cinza de cigarro e alimentos crus como feijão,
milho e batata. A procura por tratamento geralmente se dá após
complicações clinicas resultantes do sintoma alimentar,
como por envenenamento, perfuração intestinal e verminoses.
Para se ter diagnóstico positivo a ingestão de substâncias
não nutritivas deve permanecer por, pelo menos, um mês.
Ruminação:
a ruminação consiste na ingestão e regurgitação
do alimento por diversas vezes. Não há causa orgânica
e é mais prevalente em bebês. Geralmente, tem inicio
entre os três a oito meses de idade, quando a criança
se encontra acordada, quieta e entretida com ela mesma. Nunca quando
a criança esta dormindo ou quando ela esta ativamente interessada
em algum objeto ou pessoa à sua volta. Ocorre voluntariamente,
sem esforço, e repetida sem dor ou náuseas, com um volume
muito pequeno de alimento expelido. Seu inicio se dá após
trinta minutos do termino da refeição, podendo durar
por uma hora ou mais.
Após
toda esta explanação, fica o alerta, para os pais e
cuidadores que observem seus filhos frente ao ato da alimentação.
Caso exista alguma suspeita de que a criança possa estar com
algum tipo de transtorno do comportamento alimentar, procure um profissional
especializado para minimizar ou reverter as conseqüências
advindas destas patologias. Assim seu filho, sobrinho, ou conhecido
terá um desenvolvimento físico e comportamental normal.
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Carolina
de Ávila Rodrigues
Nutricionista
– UNISINOS
Mestrado em Medicina - Ciências Médicas UFRGS
Professora da Rede Metodista de Educação do Sul
Professora substituta do departamento de Pediatria e Puericultura
da UFRGS
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Matéria
publicada na Revista Classic Life
Edição
nº 13 - NOV/DEZ/JAN - 2009
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