Classic Life Psicologia Ed. 02 - Jan/Fev/2002
 


O Amor e o poder

Escrever, falar, definir, explicar o amor é difícil. E o que é difícil pode tornar-se um desafio. Os poetas são aqueles que falam sobre o amor com amor. Será o amor a inspiração dos poetas ou a dor de amor? O amor está sempre associado a uma promessa, a um desejo, ao que ainda não foi conquistado. Quando não se tem a pretensão de explicar o amor, de dominar o que se sabe dele, percebe-se logo que o amor escapa das palavras. Elas não dão conta de expressar este sentimento, pois ele possui uma linguagem aprendida pelo coração e não pela razão. E quem manda no coração?

O amor e o poder. O amor está associado a conquista. Conquistar segundo o dicionário significa submeter pela força das armas, vencer, ganhar. A arma é a flecha do cupido, que atinge aos corações. O que o apaixonado busca? Conquistar o amor do amado. Mas se o amor é indefinido, quando que o apaixonado considera-se vencedor? Nunca. Amar significa estar constantemente à procura. Nas regras deste jogo não ser vencedor não é a mesma coisa que ser perdedor. O jogo do amor não tem fim. Porém, quando não se sabe jogar, inicia-se a guerra: o desejo de possuir o outro passa a ser a garantia de Ter o seu amor. Querer dominar a outra pessoa, querer que ela seja somente sua, sufoca o ser amado. Um amado sufocado morre. Mas o amor não sufoca. Então o que alguém que ama e deseja conquistar faz que pode sufocar? Quando deseja que o ser amado não seja mais ele mesmo, com seus desejos peculiares. Como o amor é cego, ele confunde algumas vezes, fidelidade e individualidade. O amor é eterno quando respeita a liberdade da singularidade.

Os humanos não nascem amando, nascem sendo amados. Aprenderão a amar a medida em que não se vêem mais senhores do mundo. Uma criança vai percebendo que o mundo não gira em torno dela mesma. Isto dói. Esta é a dor de amor. Dói perceber que o mundo, as pessoas não correspondem a todas as suas necessidades. Assim nasce o desejo, assim nasce o amor. O amor nasce com a dor, não porque as pessoas são masoquistas, mas porque amar significa ‘não ter tudo’. Isso dói, mas nos torna mais incompletos, mais humanos, mais poetas, mais amantes.

A procura do ser amado pode estar guiada pela busca da complementariedade, como se diz popularmente, pela busca da ‘metade da laranja’, da ‘tampa da panela’, da ‘cara-metade’. O amor busca completar o que falta ao amante. Se o que falta ao amante é amor-próprio, ele que tentará conquistar pela guerra e não pela sedução, seu amor será sufocante. Esta diferença está alicerçada na distinção entre procurar dominar o outro para não perder o controle e procurar no coração da outra pessoa aquilo que admira. Admirar significa olhar com surpresa. O que nos surpreende nas outras pessoas não é o que simplesmente é igual a nós ou contrário a nós mesmos. O que nos espanta em quem admiramos é a novidade, o inédito, os atributos particulares de cada pessoa, as diferenças.
Encontrar-se com a própria fragilidade, com a própria vulnerabilidade e entrar no jogo do amor é saber amar. Saber amar é saber deixar alguém te amar, como canta um poeta.


Drª Simone Engbrecht
(hotsite)

CRP  07/05555 – Psicóloga e Psicanalista


<< Voltar para Psicologia | << Voltar para 2 edição 

 
 
*** O conteúdo publicado neste site possui caráter meramente informativo. As informações aqui publicadas não devem ser usadas para a execução de diagnósticos, procedimentos ou tratamentos sem prévia orientação médica. Consulte sempre o seu médico.***
..
Copyright © Desde 2001 Revista Classic Life • Todos os direitos reservados www.classiclife.com.br