O
Amor e o poder
Escrever,
falar, definir, explicar o amor é difícil. E o que é
difícil pode tornar-se um desafio. Os poetas são aqueles
que falam sobre o amor com amor. Será o amor a inspiração
dos poetas ou a dor de amor? O amor está sempre associado a
uma promessa, a um desejo, ao que ainda não foi conquistado.
Quando não se tem a pretensão de explicar o amor, de
dominar o que se sabe dele, percebe-se logo que o amor escapa das
palavras. Elas não dão conta de expressar este sentimento,
pois ele possui uma linguagem aprendida pelo coração
e não pela razão. E quem manda no coração?
O amor e o poder. O amor está associado a conquista. Conquistar
segundo o dicionário significa submeter pela força das
armas, vencer, ganhar. A arma é a flecha do cupido, que atinge
aos corações. O que o apaixonado busca? Conquistar o
amor do amado. Mas se o amor é indefinido, quando que o apaixonado
considera-se vencedor? Nunca. Amar significa estar constantemente
à procura. Nas regras deste jogo não ser vencedor não
é a mesma coisa que ser perdedor. O jogo do amor não
tem fim. Porém, quando não se sabe jogar, inicia-se
a guerra: o desejo de possuir o outro passa a ser a garantia de Ter
o seu amor. Querer dominar a outra pessoa, querer que ela seja somente
sua, sufoca o ser amado. Um amado sufocado morre. Mas o amor não
sufoca. Então o que alguém que ama e deseja conquistar
faz que pode sufocar? Quando deseja que o ser amado não seja
mais ele mesmo, com seus desejos peculiares. Como o amor é
cego, ele confunde algumas vezes, fidelidade e individualidade. O
amor é eterno quando respeita a liberdade da singularidade.
Os humanos não nascem amando, nascem sendo amados. Aprenderão
a amar a medida em que não se vêem mais senhores do mundo.
Uma criança vai percebendo que o mundo não gira em torno
dela mesma. Isto dói. Esta é a dor de amor. Dói
perceber que o mundo, as pessoas não correspondem a todas as
suas necessidades. Assim nasce o desejo, assim nasce o amor. O amor
nasce com a dor, não porque as pessoas são masoquistas,
mas porque amar significa não ter tudo. Isso dói,
mas nos torna mais incompletos, mais humanos, mais poetas, mais amantes.
A procura do ser amado pode estar guiada pela busca da complementariedade,
como se diz popularmente, pela busca da metade da laranja,
da tampa da panela, da cara-metade. O amor
busca completar o que falta ao amante. Se o que falta ao amante é
amor-próprio, ele que tentará conquistar pela guerra
e não pela sedução, seu amor será sufocante.
Esta diferença está alicerçada na distinção
entre procurar dominar o outro para não perder o controle e
procurar no coração da outra pessoa aquilo que admira.
Admirar significa olhar com surpresa. O que nos surpreende nas outras
pessoas não é o que simplesmente é igual a nós
ou contrário a nós mesmos. O que nos espanta em quem
admiramos é a novidade, o inédito, os atributos particulares
de cada pessoa, as diferenças.
Encontrar-se com a própria fragilidade, com a própria
vulnerabilidade e entrar no jogo do amor é saber amar. Saber
amar é saber deixar alguém te amar, como canta um poeta.
Drª Simone Engbrecht (hotsite)
CRP 07/05555 – Psicóloga e Psicanalista
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