Solidão x Solidariedade
O
homem pré-histórico é muito diferente do homem
da pós-modernidade?
As cavernas eram mais sombrias que a escuridão das grandes
cidades? Quando pensamos em evolução, em diferenças,
em comparações, tendemos a refletir sobre se os avanços
trouxeram melhorias ou desastres. O progresso vem associado a uma
ameaça de fim do mundo, de desastres. Como se um passo à
frente estivesse associado a um passo atrás.
Deixemos de lado as avaliações, a fim de refletirmos
sobre a humanização. A violência cresce progressivamente.
Será que o homem está se tornando mais violento? Será
que falta amor? Será que a falta de amor é o preço
da evolução? Quando refletimos sobre a aparência
solitária dos homens neste milênio, torna-se necessário
definirmos o que é solidão e qual é o sofrimento
associado a esta situação, se é que há
sofrimento.
Solidão, segundo nossa língua, significa estado em que
se acha ou vive só. Parece uma definição clara.
A complexidade da situação de estar só, porém,
se faz quando definirmos ser só. SÓ pode
ser entendido como desacompanhado ou também como único.
Todos querem ser únicos, sem se sentirem desacompanhados. As
nossas impressões digitais são únicas, mesmo
que nosso mapa genético seja idêntico ao de outra pessoa.
O desejo de ser especial, individual, único faz parte da formação
da nossa identidade.
A agressividade também faz parte da natureza humana, ela é
fundamental para sobrevivência. Fundamental, porque o ataque
é a primeira defesa da qual dispomos quando estamos nos desenvolvendo,
a agressividade fundamenta a proteção. Porém,
o desejo de domínio liga-se a esta tendência natural
e o homem passa a aliar a agressividade ao desejo de poder e fica
violento. Quando a individualidade NÃO é adquirida pela
construção da identidade, das marcas especiais que vão
sendo traçadas na caminhada da vida, a pessoa busca reconhecer-se
a partir da ausência dos outros. Usa o ditado popular: em
terra de cego quem tem um olho é rei para encontrar um
caminho de sentir-se rei.
Quando se percebe com um olho só, ao invés de colocar
óculos para enxergar melhor ou pedir auxílio para outros
olhos, torna seus companheiros de terra, cegos.
As relações entre os homens, na atualidade, estão
baseadas no jogo onde só há um ganhador. O desejo de
domínio suplanta os outros desejos tão humanos quanto.
Encontramos pessoas que buscam seu valor na desqualificação
de quem está ao seu redor, pessoas solitárias porque
seu único ideal é vencer na solidão.
Não é de admirar que seja comum a proteção
ser construída através da falta de confiança
e da necessidade de distância entre as pessoas. Os bens de consumo
prometem prazer em fazer e ser sozinho. Mais automóveis, mais
apartamentos, mais auto-atendimento, mais produções
independentes. Como se o desejo fosse destituir a necessidade
de alguém ao meu lado. Perceber o desejo de estar com alguém,
perceber o valor de alguém e não se desesperar com a
idéia de não sermos completos, nem perfeitos, nem muito
menos os donos do mundo, nos convoca a querermos estar acompanhados
sem a compulsão a dominar, a possuir o mundo e as pessoas.
Com humor, poderíamos perguntar: do que adiantaria ser dono
do mundo se isto implica em estar solitário? Quando acompanhados
de seres dominados e submetidos, estamos solitários. As semelhanças
e as diferenças entre as idéias das pessoas fazem com
que elas se aproximem e se afastem, conhecendo e reconhecendo sua
identidade. A diferença de tamanho apenas cria dependências
e não possibilita a distância necessária para
desejar estar perto novamente.
É comum a crença de que o amor próprio é
conquistado através do egoísmo. As palavras mágicas
pronunciadas na tentativa de salvar o homem da sua angústia
atual são: agora vou pensar mais em mim, como se
isso fosse a tradução do amor a si. Estas palavras,
ao invés de restituir a auto-estima de alguém, estimulam
a busca de um ideal egoísta e vazio. A identidade, a individualidade,
o amor a si mesmo pode ser alcançado pela solidariedade. Muito
mais do que pela solidão. Solidariedade é o vínculo
recíproco entre pessoas independentes. Na vida, a construção
das diferenças pode estar alicerçada em diferenças
de idéias e não de valores. Em sermos simplesmente diferentes,
sem avaliar quem é o melhor. Na terra de cegos, o desejo de
ser rei tem de ser suplantado pelo desejo de enxergar melhor.
Drª
Simone Engbrecht (hotsite)
CRP 07/05555 – Psicóloga e Psicanalista
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