Classic Life Psicologia Ed. 04 - Maio/Jun/2002
 



Solidão x Solidariedade


O homem pré-histórico é muito diferente do homem da pós-modernidade?
As cavernas eram mais sombrias que a escuridão das grandes cidades? Quando pensamos em evolução, em diferenças, em comparações, tendemos a refletir sobre se os avanços trouxeram melhorias ou desastres. O progresso vem associado a uma ameaça de fim do mundo, de desastres. Como se um passo à frente estivesse associado a um passo atrás.

Deixemos de lado as avaliações, a fim de refletirmos sobre a humanização. A violência cresce progressivamente. Será que o homem está se tornando mais violento? Será que falta amor? Será que a falta de amor é o preço da evolução? Quando refletimos sobre a aparência solitária dos homens neste milênio, torna-se necessário definirmos o que é solidão e qual é o sofrimento associado a esta situação, se é que há sofrimento.

Solidão, segundo nossa língua, significa estado em que se acha ou vive só. Parece uma definição clara. A complexidade da situação de estar só, porém, se faz quando definirmos ser só. ‘SÓ’ pode ser entendido como desacompanhado ou também como único. Todos querem ser únicos, sem se sentirem desacompanhados. As nossas impressões digitais são únicas, mesmo que nosso mapa genético seja idêntico ao de outra pessoa. O desejo de ser especial, individual, único faz parte da formação da nossa identidade.

A agressividade também faz parte da natureza humana, ela é fundamental para sobrevivência. Fundamental, porque o ataque é a primeira defesa da qual dispomos quando estamos nos desenvolvendo, a agressividade fundamenta a proteção. Porém, o desejo de domínio liga-se a esta tendência natural e o homem passa a aliar a agressividade ao desejo de poder e fica violento. Quando a individualidade NÃO é adquirida pela construção da identidade, das marcas especiais que vão sendo traçadas na caminhada da vida, a pessoa busca reconhecer-se a partir da ausência dos outros. Usa o ditado popular: “em terra de cego quem tem um olho é rei” para encontrar um caminho de sentir-se “rei”.

Quando se percebe com um olho só, ao invés de colocar óculos para enxergar melhor ou pedir auxílio para “outros olhos”, torna seus companheiros de terra, cegos.

As relações entre os homens, na atualidade, estão baseadas no jogo onde só há um ganhador. O desejo de domínio suplanta os outros desejos tão humanos quanto. Encontramos pessoas que buscam seu valor na desqualificação de quem está ao seu redor, pessoas solitárias porque seu único ideal é vencer na solidão.

Não é de admirar que seja comum a proteção ser construída através da falta de confiança e da necessidade de distância entre as pessoas. Os bens de consumo prometem prazer em fazer e ser sozinho. Mais automóveis, mais apartamentos, mais “auto-atendimento”, mais “produções independentes”. Como se o desejo fosse destituir a necessidade de alguém ao meu lado. Perceber o desejo de estar com alguém, perceber o valor de alguém e não se desesperar com a idéia de não sermos completos, nem perfeitos, nem muito menos os donos do mundo, nos convoca a querermos estar acompanhados sem a compulsão a dominar, a possuir o mundo e as pessoas.

Com humor, poderíamos perguntar: do que adiantaria ser dono do mundo se isto implica em estar solitário? Quando acompanhados de seres dominados e submetidos, estamos solitários. As semelhanças e as diferenças entre as idéias das pessoas fazem com que elas se aproximem e se afastem, conhecendo e reconhecendo sua identidade. A diferença de tamanho apenas cria dependências e não possibilita a distância necessária para desejar estar perto novamente.

É comum a crença de que o amor próprio é conquistado através do egoísmo. As palavras mágicas pronunciadas na tentativa de salvar o homem da sua angústia atual são: “agora vou pensar mais em mim”, como se isso fosse a tradução do amor a si. Estas palavras, ao invés de restituir a auto-estima de alguém, estimulam a busca de um ideal egoísta e vazio. A identidade, a individualidade, o amor a si mesmo pode ser alcançado pela solidariedade. Muito mais do que pela solidão. Solidariedade é o vínculo recíproco entre pessoas independentes. Na vida, a construção das diferenças pode estar alicerçada em diferenças de idéias e não de valores. Em sermos simplesmente diferentes, sem avaliar quem é o melhor. Na terra de cegos, o desejo de ser rei tem de ser suplantado pelo desejo de enxergar melhor.

Drª Simone Engbrecht (hotsite)
CRP  07/05555 – Psicóloga e Psicanalista


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