Classic Life Psicologia Ed. 05 - Jul/Ago/2002
 


INFIDELIDADE

Na vida, estar diante de dilemas e enigmas a decifrar é a rotina. O amadurecimento do ser humano implica em freqüentes escolhas. Ter a oportunidade de escolher significa ter liberdade. Escolher a profissão, a religião, o candidato político, o time de futebol. Portanto, uma escolha deveria nos deixar com uma sensação de que somos livres. Porém, depois de uma escolha ter sido feita, a sensação pode ser de aprisionamento. E a quem amamos? Escolhemos? Inicio este texto refletindo sobre o que nos diz Otávio Paz: amar implica em sermos livres para escolher de quem vamos ficar prisioneiros. A fidelidade é a lealdade a uma escolha, seja ela conjugal, religiosa, profissional, ou de um ideal. Somos fiéis a quem ou a que amamos. Manter a fidelidade pode parecer uma prisão. Por que será que queremos variar as escolhas? Será porque mudamos de idéia?

A polêmica em relação a infidelidade, principalmente quando se fala em relacionamentos conjugais, quase sempre recai na busca de saída da rotina. Ninguém é feliz repetindo a mesma escolha. Quando alguém está apaixonado, era comum se ouvir a expressão: ‘ele está amarrado’. Será que nos amarramos, quando nos ligamos a alguém? Sim, mas o amor implica também numa escolha. Esta aparente contradição está apoiada no entendimento de que nem todas as escolhas são conscientes. Isto é, o coração não é controlado pela nossa razão.

Poderíamos superficialmente concluir que não nos controlamos, que tudo o que fazemos possui uma raiz inconsciente, que é alheio a nossa responsabilidade e considerar nossas ações como acidentais. Este é um uso indevido, que pode se fazer, das descobertas da Psicanálise: Freud é quem explica, tudo é inconsciente, não preciso me responsabilizar por nada... Porém, é fundamental salientar que o Inconsciente pertence a cada indivíduo e a este cabe lidar com seus desejos.

Responsabilizar-se pela parte obscura de si mesmo torna alguém mais maduro. Aqui convém esclarecer que responsabilidade não tem o mesmo significado que culpa. Alguém é culpado quando responsabiliza-se por um crime. A responsabilidade de uma pessoa pelo seu coração compreende uma apropriação de seus desejos, uma tomada de consciência das suas pretensões. Saber é poder, portanto o domínio das tensões de cada pessoa perpassa a aquisição do conhecimento do seu interior.

A questão da infidelidade parece ser: como atender aos desejos do coração e não sentir-se prisioneiro. Voltemos a idéia da rotina. A cada dia, convivemos com algumas repetições: o Sol nasce, se põe, a noite retorna. Por que nos encantamos com essa repetição? Não é o homem que decide que a Terra gira em torno do Sol e aí descobrimos que a Natureza não dominada é muito bela. Existe uma tendência humana ao domínio, mas uma admiração, uma paixão por aquilo que o surpreende.

Encontrar em cada escolha um elemento surpresa é um desafio muito maior do que controlar as escolhas e variá-las na aparência. A dificuldade atualmente na manutenção da estabilidade de uma escolha, seja ela de qualquer ordem parece estar na descoberta de enigmas naquilo que está bem próximo. O amadurecimento do amor consiste nesta descoberta. O desejo de variação, de parceiro, de lugar, de ideais, de valores, pode indicar uma inquietude com um tédio. E este tédio, na maior parte das vezes, não é causado por uma rotina da vida, mas um desânimo com ela. Escolhendo, renunciamos ao que não foi escolhido. Quando alguém quer tudo, na realidade, não deseja nada. A angústia de uma situação assim é muito grande.

A manutenção de um contrato de fidelidade é feita a partir da renovação das escolhas. Descobrir que somos prisioneiros por escolha a uma entrega e não, porque fomos presos por um crime, permite que tenhamos consciência do poder do amor, dos desejos e da dor do qual não conseguimos renunciar.


Drª Simone Engbrecht
(hotsite)

CRP  07/05555 – Psicóloga e Psicanalista


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