INFIDELIDADE
Na
vida, estar diante de dilemas e enigmas a decifrar é a rotina.
O amadurecimento do ser humano implica em freqüentes escolhas.
Ter a oportunidade de escolher significa ter liberdade. Escolher a
profissão, a religião, o candidato político,
o time de futebol. Portanto, uma escolha deveria nos deixar com uma
sensação de que somos livres. Porém, depois de
uma escolha ter sido feita, a sensação pode ser de aprisionamento.
E a quem amamos? Escolhemos? Inicio este texto refletindo sobre o
que nos diz Otávio Paz: amar implica em sermos livres para
escolher de quem vamos ficar prisioneiros. A fidelidade é a
lealdade a uma escolha, seja ela conjugal, religiosa, profissional,
ou de um ideal. Somos fiéis a quem ou a que amamos. Manter
a fidelidade pode parecer uma prisão. Por que será que
queremos variar as escolhas? Será porque mudamos de idéia?
A polêmica em relação a infidelidade, principalmente
quando se fala em relacionamentos conjugais, quase sempre recai na
busca de saída da rotina. Ninguém é feliz repetindo
a mesma escolha. Quando alguém está apaixonado, era
comum se ouvir a expressão: ele está amarrado.
Será que nos amarramos, quando nos ligamos a alguém?
Sim, mas o amor implica também numa escolha. Esta aparente
contradição está apoiada no entendimento de que
nem todas as escolhas são conscientes. Isto é, o coração
não é controlado pela nossa razão.
Poderíamos superficialmente concluir que não nos controlamos,
que tudo o que fazemos possui uma raiz inconsciente, que é
alheio a nossa responsabilidade e considerar nossas ações
como acidentais. Este é um uso indevido, que pode se fazer,
das descobertas da Psicanálise: Freud é quem explica,
tudo é inconsciente, não preciso me responsabilizar
por nada... Porém, é fundamental salientar que o Inconsciente
pertence a cada indivíduo e a este cabe lidar com seus desejos.
Responsabilizar-se pela parte obscura de si mesmo torna alguém
mais maduro. Aqui convém esclarecer que responsabilidade não
tem o mesmo significado que culpa. Alguém é culpado
quando responsabiliza-se por um crime. A responsabilidade de uma pessoa
pelo seu coração compreende uma apropriação
de seus desejos, uma tomada de consciência das suas pretensões.
Saber é poder, portanto o domínio das tensões
de cada pessoa perpassa a aquisição do conhecimento
do seu interior.
A questão da infidelidade parece ser: como atender aos desejos
do coração e não sentir-se prisioneiro. Voltemos
a idéia da rotina. A cada dia, convivemos com algumas repetições:
o Sol nasce, se põe, a noite retorna. Por que nos encantamos
com essa repetição? Não é o homem que
decide que a Terra gira em torno do Sol e aí descobrimos que
a Natureza não dominada é muito bela. Existe uma tendência
humana ao domínio, mas uma admiração, uma paixão
por aquilo que o surpreende.
Encontrar em cada escolha um elemento surpresa é um desafio
muito maior do que controlar as escolhas e variá-las na aparência.
A dificuldade atualmente na manutenção da estabilidade
de uma escolha, seja ela de qualquer ordem parece estar na descoberta
de enigmas naquilo que está bem próximo. O amadurecimento
do amor consiste nesta descoberta. O desejo de variação,
de parceiro, de lugar, de ideais, de valores, pode indicar uma inquietude
com um tédio. E este tédio, na maior parte das vezes,
não é causado por uma rotina da vida, mas um desânimo
com ela. Escolhendo, renunciamos ao que não foi escolhido.
Quando alguém quer tudo, na realidade, não deseja nada.
A angústia de uma situação assim é muito
grande.
A manutenção de um contrato de fidelidade é feita
a partir da renovação das escolhas. Descobrir que somos
prisioneiros por escolha a uma entrega e não, porque fomos
presos por um crime, permite que tenhamos consciência do poder
do amor, dos desejos e da dor do qual não conseguimos renunciar.
Drª Simone Engbrecht (hotsite)
CRP 07/05555 – Psicóloga e Psicanalista
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