Classic Life Psicologia Ed. 06 - Set/Out/2002
 


Café com Leite

“Senta direito minha filha, você é menina...”
“Deixa ele correr, isso é coisa de menino...”


Quem já não ouviu frases deste tipo? Têm aos milhares não é mesmo? Meninas devem fazer assim, meninos devem fazer assado. Meninos são assim e meninas de outro jeito. Fomos criados cheios de regras de como devemos ser ou nos comportar por sermos homens ou mulheres. Seriam assim as diferenças inatas, cerebrais ou adquiridas pela identificação ou imposta pela cultura?

Penso que é por tudo isso e mais um pouco. Não podemos negar as diferenças entre homens e mulheres. E ainda bem que essas diferenças existem, pois se não existissem, como nos complementaríamos?

O problema é que as diferenças são vistas como características opostas e que geram invariavelmente problemas e não como características que se apoiam, ajudam e que são complementares. Com isso deixamos de aproveitar o que cada gênero pode oferecer ao outro... Mais do que compreensão ou aceitação, ou mesmo aproveitamento dessas características, é necessário que haja um certo luto da pessoa idealizada que acreditamos que o outro possa ser ou se transformar. Buscamos a tal parte da maçã, buscamos o eterno pedaço que nos falta, nossa alma gêmea, que não existe. Buscamos na verdade uma extensão de nós mesmos. Alguém que pense como nós, que haja como nós, resumindo, que seja quem sou ou que eu espero que seja. Como nos aperfeiçoaríamos assim, como pessoas, como seres humanos?

Querendo transformar galinha em peru, as mulheres colocam um espanador na galinha e dizem glu-glu-glu esperando a resposta que vem có,có,có. Mulheres aprendam: não tem mágica capaz de transformar galinhas em perus. Precisamos deixar de ser professoras e querer ensinar. Por sua vez, os homens chegam maravilhados e mostram o carro, ao que a mulher pergunta: “O que foi? Eles dizem: “A roda!” O que têm a roda? – perguntam as mulheres. Aqui abrem-se parênteses: homens, aprendam! Não conseguimos entender a importância da roda, mas estamos a caminho. Acredito mesmo que ambos estão a caminho desses entendimentos. Ainda existe uma caminhada, mas também existem verdadeiros transgressores querendo buscar estes entendimentos. Não temos condições ainda de entender algumas coisas, outras podemos até aprender e de forma empática se colocar no lugar do outro. Basicamente somos diferentes e ainda aprendizes.

Quando homens e mulheres começarem a aprender um com o outro, deixando de lado velhas rixas, disputas ou chavões para descobrirem quem faz mais certo ou quem faz melhor, certamente abriremos muitos caminhos no que diz respeito à relacionamentos. De certa forma acredito que isso já está acontecendo. Li num livro que as meninas buscam relacionamentos e cooperação e os meninos buscam poder e status. Verdade? Não acredito nisso, pois vejo hoje as meninas falando o que serão quando crescerem, o que comprarão. Não estão somente na velha regra de brincar de casinha. E os meninos, então. Eles brincam de casinha sim, choram sim, sem que isso os assuste ou os torne menos homens no futuro. E até falam de como será quando tiverem filhos. Será que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor? Talvez a geração com mais de 30 anos. Mas esta geração que vem aí não se enquadra mais nesses cliches. Talvez eu esteja sendo otimista, mas vejo muitos movimentos neste sentido. Mudanças culturais e internas de pessoas analisadas que buscam não só se conhecer mas conhecer o outro e além disso transgredir regras que ficam quase como que profecias: É assim e pronto!

Mendes Ribeiro escreveu um artigo maravilhoso que dizia: “Fascina-me o jogo do saber quem és” E esta eterna busca do descobrimento do outro, esquecendo diagnósticos, diretrizes ou rótulos que fecham possibilidades e limitam, ao invés de ampliar possibilidades. Isto é o que é bom no relacionamento à dois. Tudo o que puderem aprender sobre o outro e que amplie possibilidades é ótimo. Tudo que, de alguma forma, feche possibilidades ou que denote rigidez (do tipo: é assim e pronto!), com certeza não os ajudará. Tudo o que puderem ler, conhecer, aprender e refletir; tudo aquilo que amplie a visão um do outro e de si mesmo, aproveitem! Tudo aquilo que for para fechar, afastem-se! Afinal, café e leite são coisas totalmente diferentes mas que se completam tão bem, é só uma questão de dosar à gosto. Como podem ver, nessa história de homens e mulheres, hoje em dia temos um empate técnico.




Drª Maria Cristina Manfro
- CRP  07/04179
Psicóloga Clínica, Terapeuta de Familia e Casal; e Mediadora Familiar
Novo Hamburgo/RS – Fone: (51) 3594.6273 / 3582.5774

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