Café
com Leite
Senta
direito minha filha, você é menina...
Deixa ele correr, isso é coisa de menino...
Quem
já não ouviu frases deste tipo? Têm aos milhares
não é mesmo? Meninas devem fazer assim, meninos devem
fazer assado. Meninos são assim e meninas de outro jeito. Fomos
criados cheios de regras de como devemos ser ou nos comportar por
sermos homens ou mulheres. Seriam assim as diferenças inatas,
cerebrais ou adquiridas pela identificação ou imposta
pela cultura?
Penso que é por tudo isso e mais um pouco. Não podemos
negar as diferenças entre homens e mulheres. E ainda bem que
essas diferenças existem, pois se não existissem, como
nos complementaríamos?
O problema é que as diferenças são vistas como
características opostas e que geram invariavelmente problemas
e não como características que se apoiam, ajudam e que
são complementares. Com isso deixamos de aproveitar o que cada
gênero pode oferecer ao outro... Mais do que compreensão
ou aceitação, ou mesmo aproveitamento dessas características,
é necessário que haja um certo luto da pessoa idealizada
que acreditamos que o outro possa ser ou se transformar. Buscamos
a tal parte da maçã, buscamos o eterno pedaço
que nos falta, nossa alma gêmea, que não existe. Buscamos
na verdade uma extensão de nós mesmos. Alguém
que pense como nós, que haja como nós, resumindo, que
seja quem sou ou que eu espero que seja. Como nos aperfeiçoaríamos
assim, como pessoas, como seres humanos?
Querendo transformar galinha em peru, as mulheres colocam um espanador
na galinha e dizem glu-glu-glu esperando a resposta que vem có,có,có.
Mulheres aprendam: não tem mágica capaz de transformar
galinhas em perus. Precisamos deixar de ser professoras e querer ensinar.
Por sua vez, os homens chegam maravilhados e mostram o carro, ao que
a mulher pergunta: O que foi? Eles dizem: A roda!
O que têm a roda? perguntam as mulheres. Aqui abrem-se
parênteses: homens, aprendam! Não conseguimos entender
a importância da roda, mas estamos a caminho. Acredito mesmo
que ambos estão a caminho desses entendimentos. Ainda existe
uma caminhada, mas também existem verdadeiros transgressores
querendo buscar estes entendimentos. Não temos condições
ainda de entender algumas coisas, outras podemos até aprender
e de forma empática se colocar no lugar do outro. Basicamente
somos diferentes e ainda aprendizes.
Quando homens e mulheres começarem a aprender um com o outro,
deixando de lado velhas rixas, disputas ou chavões para descobrirem
quem faz mais certo ou quem faz melhor, certamente abriremos muitos
caminhos no que diz respeito à relacionamentos. De certa forma
acredito que isso já está acontecendo. Li num livro
que as meninas buscam relacionamentos e cooperação e
os meninos buscam poder e status. Verdade? Não acredito nisso,
pois vejo hoje as meninas falando o que serão quando crescerem,
o que comprarão. Não estão somente na velha regra
de brincar de casinha. E os meninos, então. Eles brincam de
casinha sim, choram sim, sem que isso os assuste ou os torne menos
homens no futuro. E até falam de como será quando tiverem
filhos. Será que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor?
Talvez a geração com mais de 30 anos. Mas esta geração
que vem aí não se enquadra mais nesses cliches. Talvez
eu esteja sendo otimista, mas vejo muitos movimentos neste sentido.
Mudanças culturais e internas de pessoas analisadas que buscam
não só se conhecer mas conhecer o outro e além
disso transgredir regras que ficam quase como que profecias: É
assim e pronto!
Mendes Ribeiro escreveu um artigo maravilhoso que dizia: Fascina-me
o jogo do saber quem és E esta eterna busca do descobrimento
do outro, esquecendo diagnósticos, diretrizes ou rótulos
que fecham possibilidades e limitam, ao invés de ampliar possibilidades.
Isto é o que é bom no relacionamento à dois.
Tudo o que puderem aprender sobre o outro e que amplie possibilidades
é ótimo. Tudo que, de alguma forma, feche possibilidades
ou que denote rigidez (do tipo: é assim e pronto!), com certeza
não os ajudará. Tudo o que puderem ler, conhecer, aprender
e refletir; tudo aquilo que amplie a visão um do outro e de
si mesmo, aproveitem! Tudo aquilo que for para fechar, afastem-se!
Afinal, café e leite são coisas totalmente diferentes
mas que se completam tão bem, é só uma questão
de dosar à gosto. Como podem ver, nessa história de
homens e mulheres, hoje em dia temos um empate técnico.
Drª Maria Cristina Manfro
- CRP 07/04179
Psicóloga
Clínica, Terapeuta de Familia e Casal; e Mediadora Familiar
Novo Hamburgo/RS – Fone: (51) 3594.6273 / 3582.5774
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