SUBMISSÃO:
Acima dela, há uma missão.
Submissão
é uma palavra estranha: possui um prefixo com significado subentendido:
disposição para aceitar um estado de dependência.
Será que quando se está submetido aceita-se este estado
por perceber-se por baixo?
Iniciando pelo verbo submeter, verificamos que seu significado indica
sujeitar, subjugar, reduzir à obediência. Comenta-se,
talvez, muito mais a respeito da liderança, da capacidade de
dirigir um grupo ou idéias do que da capacidade de obediência
às leis. Talvez porque tenhamos um preconceito com a submissão,
ou com aqueles que estão por baixo. Mas, podemos observar a
submissão sob outro ponto de vista, ou seja, a partir de qual
é a missão de quem encontra-se submetido a algo ou a
outro alguém?
Em Psicanálise, compreende-se que todo ser humano desenvolve
um impulso ao domínio. É a pulsão de domínio
que se mostra através da atividade de possuir tudo aquilo que
satisfaz a cada um. No início da vida, o indivíduo não
se diferencia dos demais. Possui uma idéia de que o mundo gira
ao seu redor. Esta fantasia onipotente vai sendo quebrada a cada frustração.
Mas isso não ocorre repentinamente. A descoberta de que não
somos donos de tudo abre uma ferida que vai sendo cicatrizada através
da formação da individualidade. Descobrir que não
somos tudo abre espaço para a curiosidade e para descobrir
quem somos. Portanto, a curiosidade é filha deste impulso ao
domínio.
Algumas vezes, amadurecer, perceber a nossa impotência diante
das situações não é nada fácil.
Na dificuldade, surge uma tentativa a desfazer a descoberta da fragilidade.
A submissão surge como uma estratégia a fim de manter
a fantasia onipotente. Nos momentos em que uma pessoa se submete a
uma determinada situação pode acalentar no seu íntimo
uma manutenção da fantasia de que terá tudo o
que quiser se pagar o preço de submeter-se a alguém.
Como se negociasse com as suas exigências. Na tentativa de controlar
a raiva que uma frustração provoca, alguém pode
acreditar que submetendo-se, deixando no subsolo todas as suas idéias,
como reembolso, suas expectativas serão atendidas magicamente.
Como este é um negócio fadado ao insucesso, pois a submissão
não garante nenhuma conquista, a ira diante de uma submissão
pode emergir como um submarino.
É importante diferenciar que a obediência a uma lei pode
ser feita de duas formas: por organização ou por obrigação.
Quem não precisa obrigar-se para cumprir a lei, o faz porque
lhe parece automático. Submeter-se, porém, pode carregar
uma missão de obrigar a tendência ao domínio a
esconder-se. Como este impulso não silencia, ele pode causar
danos na auto-estima de uma pessoa.
Qual pode ser a saída então para este desejo humano
de dominar o mundo, esta sede de poder? A criatividade e a curiosidade
alimentam-se saudavelmente desta tendência. Procurar as missões
escondidas em algumas situações abriga o desejo de conhecimento,
que é a elaboração deste impulso mais profundo:
o impulso ao domínio. E é sempre impressionante a descoberta
constante de que quanto mais sabemos quem somos, mais sabemos que
não sabemos muito.
Drª Simone Engbrecht (hotsite)
CRP 07/05555 – Psicóloga e Psicanalista
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