Classic Life Psicologia Ed. 07 - Verão/2003
 


SUBMISSÃO:
Acima dela, há uma missão.

Submissão é uma palavra estranha: possui um prefixo com significado subentendido: disposição para aceitar um estado de dependência. Será que quando se está submetido aceita-se este estado por perceber-se por baixo?

Iniciando pelo verbo submeter, verificamos que seu significado indica sujeitar, subjugar, reduzir à obediência. Comenta-se, talvez, muito mais a respeito da liderança, da capacidade de dirigir um grupo ou idéias do que da capacidade de obediência às leis. Talvez porque tenhamos um preconceito com a submissão, ou com aqueles que estão por baixo. Mas, podemos observar a submissão sob outro ponto de vista, ou seja, a partir de qual é a missão de quem encontra-se submetido a algo ou a outro alguém?

Em Psicanálise, compreende-se que todo ser humano desenvolve um impulso ao domínio. É a pulsão de domínio que se mostra através da atividade de possuir tudo aquilo que satisfaz a cada um. No início da vida, o indivíduo não se diferencia dos demais. Possui uma idéia de que o mundo gira ao seu redor. Esta fantasia onipotente vai sendo quebrada a cada frustração. Mas isso não ocorre repentinamente. A descoberta de que não somos donos de tudo abre uma ferida que vai sendo cicatrizada através da formação da individualidade. Descobrir que não somos tudo abre espaço para a curiosidade e para descobrir quem somos. Portanto, a curiosidade é filha deste impulso ao domínio.

Algumas vezes, amadurecer, perceber a nossa impotência diante das situações não é nada fácil. Na dificuldade, surge uma tentativa a desfazer a descoberta da fragilidade. A submissão surge como uma estratégia a fim de manter a fantasia onipotente. Nos momentos em que uma pessoa se submete a uma determinada situação pode acalentar no seu íntimo uma manutenção da fantasia de que terá tudo o que quiser se pagar o preço de submeter-se a alguém. Como se negociasse com as suas exigências. Na tentativa de controlar a raiva que uma frustração provoca, alguém pode acreditar que submetendo-se, deixando no subsolo todas as suas idéias, como reembolso, suas expectativas serão atendidas magicamente. Como este é um negócio fadado ao insucesso, pois a submissão não garante nenhuma conquista, a ira diante de uma submissão pode emergir como um submarino.
É importante diferenciar que a obediência a uma lei pode ser feita de duas formas: por organização ou por obrigação. Quem não precisa obrigar-se para cumprir a lei, o faz porque lhe parece automático. Submeter-se, porém, pode carregar uma missão de obrigar a tendência ao domínio a esconder-se. Como este impulso não silencia, ele pode causar danos na auto-estima de uma pessoa.

Qual pode ser a saída então para este desejo humano de dominar o mundo, esta sede de poder? A criatividade e a curiosidade alimentam-se saudavelmente desta tendência. Procurar as missões escondidas em algumas situações abriga o desejo de conhecimento, que é a elaboração deste impulso mais profundo: o impulso ao domínio. E é sempre impressionante a descoberta constante de que quanto mais sabemos quem somos, mais sabemos que não sabemos muito.


Drª Simone Engbrecht
(hotsite)

CRP  07/05555 – Psicóloga e Psicanalista


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