Classic Life • PsicologiaEd. 08 • 2003
 


Sinais do tempo
  
Vida é o espaço de tempo entre o nascimento e a morte. De maneira estranha os humanos procuram anular a morte e tornar a vida eterna e ao mesmo tempo apressam-se em viver a vida. Buscam um corpo sempre jovem. Contraditoriamente, quem não quer perder a juventude, não deveria apressar-se, pois, apressando-se, se chega mais rápido ao futuro.

A relação do homem com o tempo é curiosa. O tempo passa, as horas, os dias, as estações. Algumas pessoas vivem apenas por viver, sem pré ocupar-se com o futuro ou refletindo sobre o passado, outras vivem como se estivessem presas ao passado, não estando abertas as novidades e, há, ainda outras, que vivem como que no futuro, imaginando que sabem o que vai lhe acontecer. Lidar com estes três tempos requer sabedoria.

O homem adquiriu simultaneamente a capacidade de reflexão e previsão. O conceito de futuro só existe quando existe o de passado e vice-versa. Foi refletindo sobre as repetições dos acontecimentos na natureza que o homem encontrou alguns princípios que o guiaram para comportar-se de maneira mais ativa sobre a sua existência. A previsão do tempo é realizada sobre probabilidades calculadas a partir de fenômenos passados. O que inquieta o homem é que a sabedoria só é adquirida com o tempo. O tempo é revelador. É ele o revelador dos enigmas. Só podemos nos apropriar da realidade a medida em que ela acontece. As previsões são sempre possibilidades. Quando as previsões não se tornam realidade ou quando a realidade não tinha sido prevista, qualquer um se angustia. O novo torna-se quase sempre um estranho ameaçador. Ameaçador, pois nos põe em contato com os nossos limites.

O conhecimento é a forma de poder que o homem encontrou para superar as outras forças: a força física dos animais, a força das águas, a força dos vulcões. A única força insuperável é a força do tempo. Quando falamos em força do tempo, logo imaginamos as rugas chegando ao nosso corpo. Cada um tenta apagar as rugas, as marcas, os sinais de que o tempo passou no corpo. E esta parece a forma atual do homem lidar com a força do tempo: ir contra ela.

O limite mais insuperável no tempo parece estar no futuro, na morte anunciada. Para lidar com este limite, o homem busca conhecer o funcionamento do seu corpo, da sua natureza. A vida parece ter ficado mais longa, é possível viver por mais tempo. Porém, ainda o desejo é viver mais tempo e sem as marcas de que ele passou. Cabe nos perguntarmos de quais marcas fugimos. Uma resposta rápida, quase que inocente seria: dos sinais do tempo. Ah! Das rugas, dos cabelos brancos, da flacidez dos músculos. Parece óbvio. Tão óbvio que devemos duvidar da resposta. Fugimos dos sinais do tempo, sim. Mas dos sinais reveladores. Da revelação do sentido da nossa existência.

Quando o homem adquire a capacidade reflexiva, quando viver não é apenas o período de sobrevivência que antecede a morte, tem desejo de saber por que vive. Por que vivemos? Esta é uma resposta que o tempo mantém guardada com ele e só nos revela a medida em que vamos vivendo a nossa vida.

A Psicanálise busca decifrar os enigmas sinalizados pelo tempo. São sinais que nos angustiam. Descobrimos a nossa fragilidade, que não controlamos a realidade quanto mais o tempo revela e esconde o sentido da nossa existência. Saber que não sabemos de tudo pode nos deixar curiosos ou fugitivos. A curiosidade é a maneira que algumas pessoas encontram para lidar com a angústia da sua ignorância diante da natureza e da vida. Infelizmente, a outra forma de lidar com esta angústia é fugindo dos sinais, não refletindo sobre absolutamente nada, apenas tentando desfazer os sinais de que o tempo passou tentando voltar para trás. Para caminhar para frente, sem ter medo de olhar para trás, é preciso ter coragem e esperança. Coragem de olhar para trás. E principalmente esperança de que fazer perguntas, tecer hipóteses e aprender com o tempo pode ser um prazer.


Drª Simone Engbrecht (hotsite)
CRP  07/05555 – Psicóloga e Psicanalista



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