Sinais
do tempo
Vida
é o espaço de tempo entre o nascimento e a morte. De
maneira estranha os humanos procuram anular a morte e tornar a vida
eterna e ao mesmo tempo apressam-se em viver a vida. Buscam um corpo
sempre jovem. Contraditoriamente, quem não quer perder a juventude,
não deveria apressar-se, pois, apressando-se, se chega mais
rápido ao futuro.
A relação
do homem com o tempo é curiosa. O tempo passa, as horas, os
dias, as estações. Algumas pessoas vivem apenas por
viver, sem pré ocupar-se com o futuro ou refletindo sobre o
passado, outras vivem como se estivessem presas ao passado, não
estando abertas as novidades e, há, ainda outras, que vivem
como que no futuro, imaginando que sabem o que vai lhe acontecer.
Lidar com estes três tempos requer sabedoria.
O homem
adquiriu simultaneamente a capacidade de reflexão e previsão.
O conceito de futuro só existe quando existe o de passado e
vice-versa. Foi refletindo sobre as repetições dos acontecimentos
na natureza que o homem encontrou alguns princípios que o guiaram
para comportar-se de maneira mais ativa sobre a sua existência.
A previsão do tempo é realizada sobre probabilidades
calculadas a partir de fenômenos passados. O que inquieta o
homem é que a sabedoria só é adquirida com o
tempo. O tempo é revelador. É ele o revelador dos enigmas.
Só podemos nos apropriar da realidade a medida em que ela acontece.
As previsões são sempre possibilidades. Quando as previsões
não se tornam realidade ou quando a realidade não tinha
sido prevista, qualquer um se angustia. O novo torna-se quase sempre
um estranho ameaçador. Ameaçador, pois nos põe
em contato com os nossos limites.
O conhecimento
é a forma de poder que o homem encontrou para superar as outras
forças: a força física dos animais, a força
das águas, a força dos vulcões. A única
força insuperável é a força do tempo.
Quando falamos em força do tempo, logo imaginamos as rugas
chegando ao nosso corpo. Cada um tenta apagar as rugas, as marcas,
os sinais de que o tempo passou no corpo. E esta parece a forma atual
do homem lidar com a força do tempo: ir contra ela.
O limite
mais insuperável no tempo parece estar no futuro, na morte
anunciada. Para lidar com este limite, o homem busca conhecer o funcionamento
do seu corpo, da sua natureza. A vida parece ter ficado mais longa,
é possível viver por mais tempo. Porém, ainda
o desejo é viver mais tempo e sem as marcas de que ele passou.
Cabe nos perguntarmos de quais marcas fugimos. Uma resposta rápida,
quase que inocente seria: dos sinais do tempo. Ah! Das rugas, dos
cabelos brancos, da flacidez dos músculos. Parece óbvio.
Tão óbvio que devemos duvidar da resposta. Fugimos dos
sinais do tempo, sim. Mas dos sinais reveladores. Da revelação
do sentido da nossa existência.
Quando
o homem adquire a capacidade reflexiva, quando viver não é
apenas o período de sobrevivência que antecede a morte,
tem desejo de saber por que vive. Por que vivemos? Esta é uma
resposta que o tempo mantém guardada com ele e só nos
revela a medida em que vamos vivendo a nossa vida.
A Psicanálise
busca decifrar os enigmas sinalizados pelo tempo. São sinais
que nos angustiam. Descobrimos a nossa fragilidade, que não
controlamos a realidade quanto mais o tempo revela e esconde o sentido
da nossa existência. Saber que não sabemos de tudo pode
nos deixar curiosos ou fugitivos. A curiosidade é a maneira
que algumas pessoas encontram para lidar com a angústia da
sua ignorância diante da natureza e da vida. Infelizmente, a
outra forma de lidar com esta angústia é fugindo dos
sinais, não refletindo sobre absolutamente nada, apenas tentando
desfazer os sinais de que o tempo passou tentando voltar para trás.
Para caminhar para frente, sem ter medo de olhar para trás,
é preciso ter coragem e esperança. Coragem de olhar
para trás. E principalmente esperança de que fazer perguntas,
tecer hipóteses e aprender com o tempo pode ser um prazer.
Drª
Simone Engbrecht (hotsite)
CRP 07/05555 – Psicóloga e Psicanalista
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