Classic Life • PsicologiaEd. 09 • 2004
 

  
Um sonho de férias
  
Os sonhos são como fotografias, revelam-se no escuro. Sob a luz do dia seguinte, lembramos de um filme quase surrealista que passa por nossa mente enquanto dormimos. A Psicanálise entende que o sonho é o guardião do sono. Enquanto sonhamos, nossa mente desliga-se do exterior para descansar. O sonho captura a atenção da nossa consciência a fim de desligá-la daquilo que a prendia na vigília. Dormir é tão importante como beber água, comer...é uma necessidade vital. Além do sono diário, quando pensamos em descanso, vêm logo à mente as férias. Necessitamos delas para recarregar as baterias. Parecem como os sonhos, guardiãs do nosso descanso. O sono nos descansa da vigília e o sonho assegura este acordo, mas e as férias nos descansam de quê? Na definição do dicionário, férias são os dias em que estão suspensos os trabalhos oficiais. Sim, a lei assegura férias para o trabalhador descansar da rotina do seu emprego. Porém, nem sempre é somente do descanso do trabalho de que necessitamos. O desejo por férias fica expresso em uma vontade de sair da rotina. Sair da rotina descansa ou estressa. Tudo é uma questão de ponto de vista. A fim de compreendermos as situações em que as férias não asseguram o descanso, aprofundaremos sua relação com os sonhos.

Assim como alguns sofrem de insônia, alguns sofrem por não conseguir tirar férias. E aqui, referimo-nos não àqueles que não tem condições concretas de fazer uma parada no ano, mas àqueles que não é que não tenham tempo, direito ou recursos econômicos de tirar férias, mas se vêem impedidos de sair da rotina. As férias viram um pesadelo.

Um sonho, um doce recheado de creme, muitas vezes, transforma-se num pesadelo. Depois de um sonho recheado com angústia, acordamos mais cansados do que quando fomos dormir. O sonho, neste caso guardou nosso sono, mas não o nosso descanso.É muito complexo administrarmos a contradição humana de que existe uma tendência que vai além da busca de prazer. Algumas vezes, repetimos comportamentos, idéias ou reações que nos causam dor. Repetimos como se estivéssemos tentando engolir algo difícil. Algumas dores quando ainda não elaboradas, continuam latejando durante a noite e durante as férias.

Sair da rotina nem sempre é um prazer, mudar é sempre difícil. Há uma tendência conservadora em nosso psiquismo. Desejamos repetir aquelas experiências que nos causaram satisfação e possuímos a tendência a repetir as experiências dolorosas até que encontremos um sentido administrável. Quando lemos um livro que nos emocionou, do qual gostamos muito, não temos a vontade de lê-lo novamente em seguida. Porém, uma criança pode implorar para que seja lida uma mesma história sem alterar uma vírgula. Por outro lado, uma pessoa, ao passar por uma situação dolorosa provavelmente sente necessidade de falar sobre o acontecimento causador da dor. Então percebemos que a relação entre o desejo de repetir não está diretamente relacionado ao prazer, mas a algo que vai além.

Mudar é sempre difícil, saímos da repetição quando a novidade é menos angustiante do que o que já era conhecido. E não saímos da rotina, quando existe algo nela que ainda não está suficientemente conhecido. Estranho! Muito estranho! É esta a contraditória estranheza da rotina. O que cansa na rotina, não é o que já conhecemos da rotina, mas o que repetimos sem compreendermos o motivo da repetição. O que estressa é a falta de controle e de autonomia diante da rotina.

Quando alguém sai de férias pode estressar-se por não conseguir descansar de si mesmo, da sua rotina, das repetições incontroláveis. O tempo de afastamento do trabalho, do estudo, do lugar onde moramos, pode criar um espaço para vermos a nossa vida cotidiana com outros olhos. Como se diz: sair em férias. Sair do lugar conhecido e arriscar-se a um lugar diferente. Uma das maiores resistências a mudança está relacionada a dificuldade em ver-se diferente, escutar-se diferente. Um tempo para escutar e enxergar os próprios desejos e responsabilizar-se por eles não é uma tarefa fácil.

Modificar uma rotina da qual aparentemente se possui controle e entregar-se ao novo é bastante complicado. Perceber-se não conhecedor da cultura, das pessoas, da língua de um lugar diferente é difícil. Porém, isso ainda não é nada, diante da dificuldade em perceber-se não conhecedor dos próprios desejos. Neste caso, programas de lazer bem montados, organizados que comandam passo a passo a liberdade das férias são bem vindos. Liberdade? Sim, conviver com a liberdade não é nada simples.

As férias deixam de ser um sonho não quando tornam-se realidade, mas quando encontrar-se consigo em momento de lazer vira um pesadelo porque durante os outros dias do ano um desencontro consigo é cultivado pela angústia em descobrir-se, revelar-se. A curiosidade a respeito de si mesmo é o melhor guia em um roteiro de férias. Porém para sentirmos curiosidade a respeito de qualquer coisa precisamos sustentar depararmo-nos com a nossa ignorância. Visitar a si mesmo de vez em quando é um bom sonho de férias.

 



Drª Simone Engbrecht
(hotsite)

CRP  07/05555 – Psicóloga e Psicanalista



<< Voltar para Psicologia | << Voltar para 9 edição

 
 
 
*** O conteúdo publicado neste site possui caráter meramente informativo. As informações aqui publicadas não devem ser usadas para a execução de diagnósticos, procedimentos ou tratamentos sem prévia orientação médica. Consulte sempre o seu médico.***
..
Copyright © Desde 2001 Revista Classic Life • Todos os direitos reservados www.classiclife.com.br