Um
sonho de férias
Os
sonhos são como fotografias, revelam-se no escuro. Sob a luz
do dia seguinte, lembramos de um filme quase surrealista que passa
por nossa mente enquanto dormimos. A Psicanálise entende que
o sonho é o guardião do sono. Enquanto sonhamos, nossa
mente desliga-se do exterior para descansar. O sonho captura a atenção
da nossa consciência a fim de desligá-la daquilo que
a prendia na vigília. Dormir é tão importante
como beber água, comer...é uma necessidade vital. Além
do sono diário, quando pensamos em descanso, vêm logo
à mente as férias. Necessitamos delas para recarregar
as baterias. Parecem como os sonhos, guardiãs do nosso descanso.
O sono nos descansa da vigília e o sonho assegura este acordo,
mas e as férias nos descansam de quê? Na definição
do dicionário, férias são os dias em que estão
suspensos os trabalhos oficiais. Sim, a lei assegura férias
para o trabalhador descansar da rotina do seu emprego. Porém,
nem sempre é somente do descanso do trabalho de que necessitamos.
O desejo por férias fica expresso em uma vontade de sair da
rotina. Sair da rotina descansa ou estressa. Tudo é uma questão
de ponto de vista. A fim de compreendermos as situações
em que as férias não asseguram o descanso, aprofundaremos
sua relação com os sonhos.
Assim como alguns sofrem de insônia, alguns sofrem por não
conseguir tirar férias. E aqui, referimo-nos não àqueles
que não tem condições concretas de fazer uma
parada no ano, mas àqueles que não é que não
tenham tempo, direito ou recursos econômicos de tirar férias,
mas se vêem impedidos de sair da rotina. As férias viram
um pesadelo.
Um sonho, um doce recheado de creme, muitas vezes, transforma-se num
pesadelo. Depois de um sonho recheado com angústia, acordamos
mais cansados do que quando fomos dormir. O sonho, neste caso guardou
nosso sono, mas não o nosso descanso.É muito complexo
administrarmos a contradição humana de que existe uma
tendência que vai além da busca de prazer. Algumas vezes,
repetimos comportamentos, idéias ou reações que
nos causam dor. Repetimos como se estivéssemos tentando engolir
algo difícil. Algumas dores quando ainda não elaboradas,
continuam latejando durante a noite e durante as férias.
Sair da rotina nem sempre é um prazer, mudar é sempre
difícil. Há uma tendência conservadora em nosso
psiquismo. Desejamos repetir aquelas experiências que nos causaram
satisfação e possuímos a tendência a repetir
as experiências dolorosas até que encontremos um sentido
administrável. Quando lemos um livro que nos emocionou, do
qual gostamos muito, não temos a vontade de lê-lo novamente
em seguida. Porém, uma criança pode implorar para que
seja lida uma mesma história sem alterar uma vírgula.
Por outro lado, uma pessoa, ao passar por uma situação
dolorosa provavelmente sente necessidade de falar sobre o acontecimento
causador da dor. Então percebemos que a relação
entre o desejo de repetir não está diretamente relacionado
ao prazer, mas a algo que vai além.
Mudar é sempre difícil, saímos da repetição
quando a novidade é menos angustiante do que o que já
era conhecido. E não saímos da rotina, quando existe
algo nela que ainda não está suficientemente conhecido.
Estranho! Muito estranho! É esta a contraditória estranheza
da rotina. O que cansa na rotina, não é o que já
conhecemos da rotina, mas o que repetimos sem compreendermos o motivo
da repetição. O que estressa é a falta de controle
e de autonomia diante da rotina.
Quando alguém sai de férias pode estressar-se por não
conseguir descansar de si mesmo, da sua rotina, das repetições
incontroláveis. O tempo de afastamento do trabalho, do estudo,
do lugar onde moramos, pode criar um espaço para vermos a nossa
vida cotidiana com outros olhos. Como se diz: sair em férias.
Sair do lugar conhecido e arriscar-se a um lugar diferente. Uma das
maiores resistências a mudança está relacionada
a dificuldade em ver-se diferente, escutar-se diferente. Um tempo
para escutar e enxergar os próprios desejos e responsabilizar-se
por eles não é uma tarefa fácil.
Modificar uma rotina da qual aparentemente se possui controle e entregar-se
ao novo é bastante complicado. Perceber-se não conhecedor
da cultura, das pessoas, da língua de um lugar diferente é
difícil. Porém, isso ainda não é nada,
diante da dificuldade em perceber-se não conhecedor dos próprios
desejos. Neste caso, programas de lazer bem montados, organizados
que comandam passo a passo a liberdade das férias são
bem vindos. Liberdade? Sim, conviver com a liberdade não é
nada simples.
As férias deixam de ser um sonho não quando tornam-se
realidade, mas quando encontrar-se consigo em momento de lazer vira
um pesadelo porque durante os outros dias do ano um desencontro consigo
é cultivado pela angústia em descobrir-se, revelar-se.
A curiosidade a respeito de si mesmo é o melhor guia em um
roteiro de férias. Porém para sentirmos curiosidade
a respeito de qualquer coisa precisamos sustentar depararmo-nos com
a nossa ignorância. Visitar a si mesmo de vez em quando é
um bom sonho de férias.
Drª Simone Engbrecht (hotsite)
CRP 07/05555 – Psicóloga e Psicanalista
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