Classic Life • PsicologiaEd. 10 • 2004
 

  
A importância da curiosidade
  
Definir a felicidade é bem complicado. Não apenas porque a felicidade é feita de momentos, mas a imagem de paraíso para cada um varia bastante. Porém há algo de comum nas buscas humanas. Um paradoxo: as novidades são desejadas, mas mudar é desconfortável.

É incrível, mas a repetição do que já é conhecido dá segurança. As pessoas buscam estabilidade nos relacionamentos, na vida financeira, nas emoções. Por outro lado, a rotina é vivida com muito incômodo. Sim, IN-cômodo! A própria rotina impulsiona a fugir da comodidade. Alguém que gosta de correr riscos poderia achar que é diferente em relação a isso. Não busca a rotina, nem a estabilidade e, por isso, gosta dos riscos. Mas, até correr riscos pode ser algo já conhecido.

Ir à busca do desconhecido é difícil, porque implica abandonarmos a repetição, a segurança do que aparentemente já dominamos. É através da repetição das experiências que aprendemos e sobrevivemos. Desde quando nascemos, estamos condenados a repetir tarefas que organizam nossa vida: alimentação, higiene... criamos hábitos. Porém, para que a vida tenha um gosto diferente a cada dia, a criatividade é fundamental.
Freud, no século passado, construiu uma teoria sobre a sexualidade. Entendeu que a descoberta de que não somos completos, nem únicos, nem onipotentes, nos incentiva a construirmos teorias que organizem nossa existência. Se, de por um lado, nos deparamos com nossa fragilidade, por outro, nos tornamos finalmente abertos ao mundo. As teorias construídas nunca estão totalmente completas. O homem descobriu que havia outros homens do outro lado do mar, que a Terra gira em torno do Sol; procura vida além deste planeta. Pôde compreender a evolução do homem. Mas a origem da vida ainda é um enigma.

A criança passa a se perguntar sobre a origem da vida através da pergunta ‘de onde vêm os bebês?’. Este questão é posta em marcha quando percebe a diferença anatômica entre os sexos. Perceber-se diferente é estranho. De um lado, a conseqüência disso é descobrir-se único, por outro lado, é dar-se conta que não sabemos de tudo e, principalmente, que ninguém vai responder tudo. Principalmente quando as perguntas dizem respeito à sua individualidade. Ninguém sabe mais sobre os pensamentos, as emoções, os desejos de alguém do que a própria pessoa. Sendo que saber tudo de si mesmo já é uma utopia.

A curiosidade está apoiada num impulso chamado, em Psicanálise, pulsão de domínio. Possuímos a tendência a dominar os estímulos e as tensões que atingem a nossa mente. As tensões, chamadas de pulsões, inauguram os desejos, as vontades, as motivações quando encontram um sentido dentro do psiquismo. Quando as tensões não encontram ligações na nossa mente, ficam buscando compulsivamente uma codificação. Quando uma tensão não encontra um sentido, ela busca ser descarregada no corpo, ou em ações sem controle. É aí que entendemos que ou dominamos os estímulos que ingressam na nossa mente, ou somos dominados por ele. E que a busca pelo domínio externaliza-se pela curiosidade ou pela violência. O poder do conhecimento pode incentivar a curiosidade, pois , quanto mais se sabe, mais se sabe que não se sabe. Já o temor do desconhecido pode fazer com que a tendência a dominar o desconhecido provoque a violência sobre os outros ou sobre si mesmo.

Pedro Bial compôs a ligação entre conselho e nostalgia: dar conselhos é uma forma de nostalgia. Sim, e, por isso, acrescentaria que, os conselhos fazem bem para quem os dá, pois fazem com que o conselheiro entre em contato com o que fez e deu certo ou com o que gostaria de ter feito e não fez. Dentro dos conselhos estão guardados os sonhos do conselheiro. E por que muitas pessoas resistem em receber conselhos? Até sabem, como diz a frase protetora, que são para o seu próprio bem. Mas é preciso ter curiosidade para aprender e principalmente para mudar.

Estarmos diante de um estranho é, por si só, angustiante. Resistimos muito é em concluir que também possuímos um lado estranho dentro de nós. Investigar este estrangeiro significa abandonar pré-conceitos. A grande mudança no tratamento das dificuldades emocionais foram proporcionadas quando concluiu-se que a curiosidade sobre si mesmo era fundamental para dar um sentido ao que se repete sem domínio. O conhecimento proporciona um poder sobre si mesmo. E o que é paradoxal e instigante é que, sempre que encontramos um sentido, uma resposta, encontramos milhares de novas perguntas. As perguntas são motivadoras, são matéria-prima de qualquer desenvolvimento. Diante da vida, nunca somos poderosos. Mas, podemos encontrar um prazer em sermos sempre seus eternos aprendizes.

Quem possui uma atração pelo desconhecido, esteja ele presente dentro ou fora de si, não teme abandonar seu ponto de vista atual ou antigo. Não teme abandonar-se porque não teme se perder. Não é a dor que nos impulsiona para frente, ela só ensina a gemer. É a nossa capacidade de agüentar as frustrações que permite que transformemos as respostas, o presente, em perguntas e andemos em frente, com curiosidade.

 



Drª Simone Engbrecht
(hotsite)

CRP  07/05555 – Psicóloga e Psicanalista



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