A importância da curiosidade
Definir
a felicidade é bem complicado. Não apenas porque a felicidade
é feita de momentos, mas a imagem de paraíso para cada
um varia bastante. Porém há algo de comum nas buscas
humanas. Um paradoxo: as novidades são desejadas, mas mudar
é desconfortável.
É incrível, mas a repetição do que já
é conhecido dá segurança. As pessoas buscam estabilidade
nos relacionamentos, na vida financeira, nas emoções.
Por outro lado, a rotina é vivida com muito incômodo.
Sim, IN-cômodo! A própria rotina impulsiona a fugir da
comodidade. Alguém que gosta de correr riscos poderia achar
que é diferente em relação a isso. Não
busca a rotina, nem a estabilidade e, por isso, gosta dos riscos.
Mas, até correr riscos pode ser algo já conhecido.
Ir à busca do desconhecido é difícil, porque
implica abandonarmos a repetição, a segurança
do que aparentemente já dominamos. É através
da repetição das experiências que aprendemos e
sobrevivemos. Desde quando nascemos, estamos condenados a repetir
tarefas que organizam nossa vida: alimentação, higiene...
criamos hábitos. Porém, para que a vida tenha um gosto
diferente a cada dia, a criatividade é fundamental.
Freud, no século passado, construiu uma teoria sobre a sexualidade.
Entendeu que a descoberta de que não somos completos, nem únicos,
nem onipotentes, nos incentiva a construirmos teorias que organizem
nossa existência. Se, de por um lado, nos deparamos com nossa
fragilidade, por outro, nos tornamos finalmente abertos ao mundo.
As teorias construídas nunca estão totalmente completas.
O homem descobriu que havia outros homens do outro lado do mar, que
a Terra gira em torno do Sol; procura vida além deste planeta.
Pôde compreender a evolução do homem. Mas a origem
da vida ainda é um enigma.
A criança passa a se perguntar sobre a origem da vida através
da pergunta de onde vêm os bebês?. Este questão
é posta em marcha quando percebe a diferença anatômica
entre os sexos. Perceber-se diferente é estranho. De um lado,
a conseqüência disso é descobrir-se único,
por outro lado, é dar-se conta que não sabemos de tudo
e, principalmente, que ninguém vai responder tudo. Principalmente
quando as perguntas dizem respeito à sua individualidade. Ninguém
sabe mais sobre os pensamentos, as emoções, os desejos
de alguém do que a própria pessoa. Sendo que saber tudo
de si mesmo já é uma utopia.
A curiosidade está apoiada num impulso chamado, em Psicanálise,
pulsão de domínio. Possuímos a tendência
a dominar os estímulos e as tensões que atingem a nossa
mente. As tensões, chamadas de pulsões, inauguram os
desejos, as vontades, as motivações quando encontram
um sentido dentro do psiquismo. Quando as tensões não
encontram ligações na nossa mente, ficam buscando compulsivamente
uma codificação. Quando uma tensão não
encontra um sentido, ela busca ser descarregada no corpo, ou em ações
sem controle. É aí que entendemos que ou dominamos os
estímulos que ingressam na nossa mente, ou somos dominados
por ele. E que a busca pelo domínio externaliza-se pela curiosidade
ou pela violência. O poder do conhecimento pode incentivar a
curiosidade, pois , quanto mais se sabe, mais se sabe que não
se sabe. Já o temor do desconhecido pode fazer com que a tendência
a dominar o desconhecido provoque a violência sobre os outros
ou sobre si mesmo.
Pedro Bial compôs a ligação entre conselho e nostalgia:
dar conselhos é uma forma de nostalgia. Sim, e, por isso, acrescentaria
que, os conselhos fazem bem para quem os dá, pois fazem com
que o conselheiro entre em contato com o que fez e deu certo ou com
o que gostaria de ter feito e não fez. Dentro dos conselhos
estão guardados os sonhos do conselheiro. E por que muitas
pessoas resistem em receber conselhos? Até sabem, como diz
a frase protetora, que são para o seu próprio bem. Mas
é preciso ter curiosidade para aprender e principalmente para
mudar.
Estarmos diante de um estranho é, por si só, angustiante.
Resistimos muito é em concluir que também possuímos
um lado estranho dentro de nós. Investigar este estrangeiro
significa abandonar pré-conceitos. A grande mudança
no tratamento das dificuldades emocionais foram proporcionadas quando
concluiu-se que a curiosidade sobre si mesmo era fundamental para
dar um sentido ao que se repete sem domínio. O conhecimento
proporciona um poder sobre si mesmo. E o que é paradoxal e
instigante é que, sempre que encontramos um sentido, uma resposta,
encontramos milhares de novas perguntas. As perguntas são motivadoras,
são matéria-prima de qualquer desenvolvimento. Diante
da vida, nunca somos poderosos. Mas, podemos encontrar um prazer em
sermos sempre seus eternos aprendizes.
Quem possui uma atração pelo desconhecido, esteja ele
presente dentro ou fora de si, não teme abandonar seu ponto
de vista atual ou antigo. Não teme abandonar-se porque não
teme se perder. Não é a dor que nos impulsiona para
frente, ela só ensina a gemer. É a nossa capacidade
de agüentar as frustrações que permite que transformemos
as respostas, o presente, em perguntas e andemos em frente, com curiosidade.
Drª Simone Engbrecht (hotsite)
CRP 07/05555 – Psicóloga e Psicanalista
<<
Voltar para Psicologia
| <<
Voltar para 10 edição