Classic Life • PsicologiaEd. 11 • 2004
 

  
Fibromalgia:
DOR e INCOMPREENSÃO
  
Durante muito tempo mulheres que se queixavam de dores musculares sem causa aparente, dores de cabeça, insônia, cansaço, ansiedade e depressão, tinham grande chance de serem rotuladas de sofrerem “dos nervos”, de problemas psicológicos. Ou ainda, de serem chamadas de desocupadas ou de estarem criando algo para chamar atenção. Hoje se sabe que existe uma doença chamada Fibromialgia (FM), que atinge em torno de 2 a 4 % da população mundial, sendo 90% do sexo feminino, cuja origem é discutível, mas que sem sombra de dúvida, não é coisa “da cabeça”, tampouco invenção.

O que é?

A FM está reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Colégio Americano de Reumatologia (ACR) desde 1990 como uma doença reumática crônica. A palavra Fibromialgia (FM), significa dor nos músculos e no tecido fibroso (ligamentos e tendões). Caracteriza-se por dor muscular difusa e crônica em vários pontos do corpo, muito embora possa começar numa região específica como ombros ou nas costas e daí espalhar-se ou migrar para outras regiões. É característico das pessoas com FM possuir áreas de sensibilidade aumentada em certas regiões do corpo, conhecidas como pontos dolorosos, pontos gatilho ou tender points (veja ilustração).

O difícil caminho do diagnóstico

A FM tem sido descrita como uma doença de difícil diagnóstico. Ainda que os sintomas estejam claramente descritos os pacientes peregrinam, de acordo com estudos, de seis a sete anos até sua confirmação. Muitos enfermos neste longo percurso se sentem menosprezados e desacreditados quanto a veracidade do sofrimento, talvez causados pelo desconhecimento de muitos dos profissionais da área da saúde de como lidar com a problemática. A história clínica e pessoal do paciente é elemento indispensável para o diagnóstico e precisa ser cuidadosamente avaliada, tendo em vista os valiosos dados que fornece para a compreensão do que está ocorrendo. Além disso, para se ter FM, é necessário cumprir com os critérios diagnósticos realizados por um especialista da reumatologia. Os critérios usuais são: a)Dor a uma pressão (+/- 4 Kg.) em ao menos 11 dos 18 pontos sensíveis situados de forma específica ao longo do corpo; b)Dor generalizada e crônica de mais de 3 meses de duração, descartando a existência de outras patologias.

Manifestações clínicas

São muitas, mas as principais são: dor, alterações do sono, cansaço, síndrome do intestino irritável, depressão e ansiedade. A dor é o sintoma mais característico. Pode ser descrita como uma “queimação” ou “ardência” e acompanhada de rigidez, sensação de inchaço e formigamento. O sono costuma não ser reparador. Ao despertar, os pacientes referem não haver descansado. Quanto ao cansaço, apresenta-se como fatiga que é descrita como falta de energia e pouca tolerância ao esforço, de modo que qualquer exercício produz incômodo e menos atividade. O síndrome do intestino irritável se manifesta em prisão de ventre alternados com diarréia e dor abdominal. Já os sintomas de depressão e ansiedade costumam aparecer na FM com maior freqüência que em pessoas sem a doença, contudo não parecem ser causa, mas sim conseqüência dos sintomas associados. Também existem outros sintomas, tais como: dores menstruais, cefaléias, síndrome temporo-mandibular, dor torácica, rigidez matutina das articulações, alterações da memória, câimbras musculares, tonturas, etc.
O curso da FM varia dependendo da história de vida de cada pessoa. No geral, existem períodos de remissão e de recaída. Não é uma doença degenerativa, mas incapacitante.

Causas e incompreensão

A causa e os mecanismos que provocam a Fibromialgia não estão perfeitamente esclarecidos. Sabe-se que para o seu surgimento múltiplos fatores entram em jogo, entre eles biológicos, psicológicos e sociais. É ainda uma doença pouco conhecida e os exames de sangue, raios-X, tomografia computadorizada e ressonância magnética não permitem a identificação de um prejuízo orgânico que a justifique. Os resultados são normais o que leva a uma tremenda distorção e incompreensão. Para o paciente e o entorno social, o diagnóstico da FM revela-se como um acontecimento sem explicação, o que causa, desconforto, angústia, desespero e sentimentos de solidão.

Aspectos psicológicos e tratamento

Não existe um tratamento específico para a Fibromialgia. Via de regra, inicia com o uso de medicamentos para alivio da dor. Analgésicos, antiinflamatórios e antidepressivos são comumente receitados e a eficácia dos mesmos varia de acordo com cada paciente. Associado ao tratamento médico está o emocional, fundamental para a compreensão do sofrimento e modificação de hábitos e atitudes associados ao quadro. Também se recomenda o condicionamento muscular desde que seja feito por conhecedores da doença. É importante que o paciente aprenda a cuidar de sua postura e a relaxar diminuindo a percepção da dor.

A participação ativa do paciente na busca de soluções é fundamental. Muitos desanimam e deixam de investir na saúde. Entretanto, não se pode afirmar que os transtornos psicológicos sejam a causa da FM, mas que a presença deles pode dificultar o afrontamento da dor, inclusive, mascará-lo. Qual a saída?

Segundo nosso ponto de vista, começa com o desejo de cura e de modificar a situação conflitante. Para isso é necessário aprender a escutar os sinais do corpo e não menosprezá-lo quando diz que já não pode mais. A psicoterapia é um meio, uma saída que tem como objetivo a compreensão das emoções, sentimentos e eventos da história de vida do paciente que estão implicados no aparecimento e manutenção da doença. Serve para potencializar a saúde promovendo melhor qualidade de vida. Auxilia na busca de modos mais favoráveis para (con)viver com a FM. Como? Através da intervenção nos estilos e estratégias de afrontamento da doença, a fim de modificar as crenças cognitivas que permeiam a enfermidade crônica. Outro objetivo prioritário é o tratamento da ansiedade e da depressão que, quando não tratadas, paralisam a ponto de impedir as atividades cotidianas.

O tratamento psicoterápico pode ser individual ou grupal e grande parte das vezes implica na participação efetiva dos familiares.
 



Drª Marcia Luconi Viana

CRP  07/2724 – Psicóloga
Mestre em Psicologia Social e da Personalidade (PUCRS)
Doutora em Psicologia da Saúde e Família (Universidad de Deusto-Espanha)

Rua Pedro Adams Filho, 5573 - sala: 506
Centro - Novo Hamburgo - RS
Fone: (51) 3561.8928

Drª Rosana Cecchini de Castro
CRP  07/2101– Psicóloga
Psicanalista (CPRGS)
Doutora em Psicologia da Saúde e Família (Universidad de Deusto-Espanha)

Rua Clemente Pinto, 224
Bairro Fião - São Leopoldo - RS
Fone: (51) 3575.5663

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