Classic Life • Psicologia
 

  
O amor é uma ilusão?
  
Em tempos de guerra, de lutas sangrentas pelo poder, de tantas desilusões em relação ao futuro, podemos falar sobre o amor? Ele sobrevive na atualidade? A violência e a falta de perspectiva acompanharam sempre a humanidade. A forma como este lado negro da civilização se revela é que mudou. As pessoas morrem em frente a câmeras de vídeo, a máquinas fotográficas, a computadores; olhares humanos e virtuais que registram tudo. Partindo deste princípio, podemos entender que as dificuldades que o amor enfrenta hoje para sobreviver é que modificaram.

Os hospitais, as escolas, os aeroportos, são palco de partidas e chegadas. As crianças choram, os pais sorriem. Os adolescentes separam-se da infância, ligam-se a novos grupos. Pessoas buscam novos destinos, despedem-se de seu passado ou reencontram suas raízes. Em meio a tantas emoções, o amor sobrevive. Entre (re)encontros e despedidas, nascimentos e mortes, todos procuram entender o sentido de existência.

Escutando a língua dos compositores, ou melhor, escutando a língua dos poetas, percebemos, nas entrelinhas, uma questão atual e inquietante. O amor é uma ilusão? Cazuza avisava: 'o poeta está vivo em seus moinhos de vento', Lulu Santos tece a hipótese: 'talvez eu seja o último romântico nos litorais deste Oceano Atlântico'. Os amantes se vêem frágeis, perguntam-se sobre os seus ideais, sobre sua cegueira. Será que o amor cega, ilude, engana e deixa realmente quem ama vulnerável?

O amor não fragiliza, mas somente quem se percebe frágil, ama. Na atualidade existe lugar para o amor, mas não para a fragilidade. Quem ama, portanto, parece precisar esconder-se. A atualidade incentiva a que os amantes busquem uma perfeição que encubra sua fragilidade humana. Privilegia-se um ideal composto por uma imagem completa, perfeita e sem falhas. Ideal é ter o corpo perfeito, o parceiro perfeito, a vida perfeita. Esta é uma idealização. Quem busca o paraíso, não busca o amor, mas procura a ausência de qualquer dificuldade. Quem busca o paraíso através de um relacionamento também não busca o amor, mas um alívio para a suas carências. Assim, o amor fica oculto atrás de uma insatisfação constante.

O amor é recheado por paradoxos, talvez por isso, somente os poetas encorajam-se em defini-lo. O maior dos seus paradoxos talvez sejam seus requisitos e efeitos colaterais. Requisito: para ser amado é preciso ter amor para dar. Efeito colateral: é amando que o amor aumenta. E, além disso, ele não se estabelece numa troca simples, 'toma lá dá cá'. Amar significa dividir e ao mesmo tempo multiplicar. É essa equação matemática que foge à lógica comum que talvez pareça com um moinho de vento. Amar não significa dar e conseqüentemente receber amor, de uma maneira linear. Amar significa compartilhar, tomar parte do amor. Isto é, tornar-se alguém que percebe-se pertencente ao grupo dos românticos, dos humanos, dos imperfeitos, frágeis, vulneráveis, incompletos e , por mais estranho que possa parecer, feliz.

Para que alguém possa identificar-se com o grupo dos amantes é preciso ter confiança. Confiança que sentir não é sofrer, é ser. Em um tempo em que a luta acirrada pelo poder se faz através de imagens intocáveis, acredita-se que quem ama sofre, pois todo sentimento é vivenciado como algo vergonhoso, portanto, doloroso.

Quando o ideal de felicidade corresponde ao paraíso, ser feliz significa não sofrer, estar plenamente satisfeito, portanto, sem desejos. Quando o ideal de felicidade corresponde ao amor, ser feliz significa sustentar que ideais são sonhos que movimentam a nossa vida.

Saint-Exupéry explicou: 'Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos'. Uma história de amor termina com 'felizes para sempre'. Porém, ela começa com a visão de um moinho de vento. E, somente alguém que não compartilha desta visão diria que ela é uma ilusão.

 

Drª Simone Engbrecht (hotsite)
CRP  07/05555 – Psicóloga e Psicanalista



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