Donos da felicidade
Ser
dono do próprio negócio é o sonho de muitos trabalhadores.
Este ideal expresso por 'ser autônomo' representa um ideal de
independência e liberdade. Livrar-se das obrigações,
não ter chefe, fazer o seu horário, trabalhar sem rotina,
parece ser o cartão de visitas desta proposta tentadora. Mas
qual é mesmo a relação entre trabalho e liberdade?
Estar empregado significa ser prisioneiro? Vivendo em um tempo onde
o desemprego é assustador, cabe refletirmos sobre o que nos
aprisiona dentro de uma atividade. Muitas vezes, a necessidade de
sobrevivência é responsabilizada pelo ponto de vista
tomado diante de um emprego: vilão ou salvador. O emprego salva
o indivíduo da miséria financeira e parece aprisioná-lo
à miséria criativa. Podemos acreditar que nossa necessidade
de sobrevivência nos aprisiona, porém cabe repensarmos
esta crença, pois não é tão simples assim.
Nossa sobrevivência nunca está totalmente garantida.
Do que mesmo precisamos nos apropriar para adquirirmos maior domínio
sobre a nossa vida?
Alguns mais cedo, outros mais tarde, desiludem-se diante do fato de
que não há formas de sermos os únicos responsáveis
pela realização de nossos desejos. É um engano
acreditar que a autonomia nos libera das frustrações,
de cumprirmos obrigações, de dependermos de outras pessoas.
Não há como escolher viver somente o lado prazeroso
da vida. O que fazer, quando tomamos contato com a impotência
diante tanto dos limites da vida, é um enigma que cada pessoa
tenta decifrar de uma maneira particular.
Nascemos
com uma necessidade, uma pulsão de domínio. Inicialmente,
acreditamos que o mundo gira ao nosso redor. Aos poucos, percebemos
que isso não é verdade. Transformamos então o
impulso de dominar o mundo em um prazer de dominar nossos próprios
desejos. A aquisição da autonomia é uma conquista
que traz muito prazer. Um prazer diferente do alívio provocado
pela satisfação de uma necessidade orgânica. Prazer
em caminhar pelas próprias pernas, controlar os esfíncteres,
diferenciar o que se pensa e o que se faz. Aos poucos, cada um vai
aprendendo a dominar seus impulsos e procurando a melhor maneira de
realizar seus sonhos e aprendendo que alguns são impossíveis
de realização.
Atualmente,
há um mito em relação à felicidade que
merece uma reflexão mais aprofundada. A busca pelo prazer está
associada à ausência de frustrações, de
tensões. Se a fortuna mais procurada, o pote de ouro no final
do arco-íris, for a inexistência de qualquer incômodo,
a fortuna é a comodidade do nada. Vivendo estamos sempre expostos
e dispostos aos desafios. 'Felizes para sempre' é o final de
uma história qualquer. As histórias de vidas que ainda
encontram-se inacabadas, ou seja, de quem continua vivo, possuem felicidade,
mas não acomodação. A definição
do que é ser feliz é bem variada. Alguém feliz
pode ser definido como alguém afortunado. Qual é a fortuna
de cada um? Dinheiro? Saúde? Amor? Sucesso? Paz? De tudo um
pouquinho? Apesar de todos saberem que não há receita
possível para sua aquisição da felicidade, todos
tentam construir um roteiro particular. Enquanto não temos
um receita de um prato, vamos experimentando, tentando, provando,
modificando os ingredientes.
A relação
do homem com o trabalho é complexa. Se por um lado, alguns
sentem-se escravos do trabalho, outros possuem nele sua única
forma de satisfação. Ou, as duas situações
ao mesmo tempo: o trabalho transforma-se numa adição,
como uma droga que alivia, mas não traz a felicidade. Existem
dois ideais da sociedade em relação ao trabalho. O primeiro
é que se existe algum desprazer relacionado ao que se faz é
porque não se faz o que se gosta. O segundo diz respeito ao
ideal de aposentadoria: trabalhar bastante quando jovem para garantir
um futuro sem trabalho. Os dois ideais parecem chocar-se, pois, se
fazemos o que gostamos, por que motivo deixaríamos de fazê-lo?
'Era
feliz e não sabia'. As dores sentidas pelos momentos perdidos
fazem com que percebamos o quanto a felicidade é indomada,
ela é um ovo em pé realmente. Concluímos que
não há fórmulas de comandarmos a felicidade,
mas de um negócio podemos ser donos: o momento em que ela se
faz presente. A autonomia consiste em nos apropriarmos deste tempo:
o instante em que somos donos de nossa existência.
Drª
Simone Engbrecht (hotsite)
CRP 07/05555 – Psicóloga e Psicanalista
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