Classic Life • Psicologia
 

  
Autônomos ou Autômatos
  
Solidão ou independência. O tempo presente exige que cada um possa cuidar de si, em auto-atendimento, em auto-ajuda, em auto-estima, em autodisciplina. Resta questionarmos se esta exigência faz de nós autônomos ou autômatos. Se vivemos sozinhos por conquistar independência ou por não podermos construir parcerias. Por que será que a sociedade cria para cada um o ideal de AUTOridade, de poder e de domínio e, a cada dia, as pessoas parecem depender mais de uma imagem impossível de ser alcançada e sentem-se impotentes em razão disso. Não será que descartando os outros para obter a sensação de independência e poder, cultuando a vida solitária, somos dominados mais facilmente por não percebermos nossa fragilidade?

Comparados às outras espécies, os seres humanos nascem bastante imaturos. Dependem de alguém que atenda suas necessidades vitais: sede, fome, proteção. Um bebê não possui a mínima condição de sobreviver sozinho. O crescimento possibilita que cada um possa sobreviver sozinho. Mas, em que momento alcançamos a tão almejada independência? Independência desejada? Desejamos somente aquilo que não possuímos. É assim que nasce um desejo: numa ausência. Em se tratando de dependência, no entanto, várias contradições surgem. Uma delas é que, enquanto somos totalmente dependentes, não desejamos nos libertar de nada, pois não percebemos a nossa impotência diante da vida. Quanto mais crescemos, mais nos tornarmos independentes, mais percebemos nossa dependência e maior é o desejo de nos livrar-nos dela. Os humanos, mesmo nascendo tão frágeis e desprotegidos, buscam apropriar-se de sua existência. O caminho que tomarão para serem senhores de sua vida é que varia bastante.

Dependência pode ser confundida com necessidade. Uma sutil diferença que pode nos cegar. Necessitamos de água, ar, alimento. A falta destes simples itens provoca a morte. Depender é estar subordinado ou estar sujeito. Mas, seria precipitado afirmar que estamos sujeitos às nossas necessidades orgânicas, pois nosso desenvolvimento permite que possamos cuidar do nosso corpo sem depender de outras pessoas. Então dependência estaria referida ao que vai além de uma necessidade vital. É muito difícil especificar o que é vital. Alguém pode depender de um elemento que é totalmente prescindível, mas possui a sensação de que é vital. Por exemplo, podemos viver sem álcool, mas alguém que dele depende possui a sensação de que ele é como o ar que oxigena a vida. Por isso talvez, dependência e necessidade sejam tão difíceis de diferenciar.

Poderíamos separar os elementos prescindíveis e imprescindíveis para sobrevivência e estabelecer o que seriam necessidades e situações de dependência. Dentro das relações é que não é assim tão simples. Alguns podem achar que o amor, que os outros, não são fundamentais para vida. Outros podem questionar que uma vida com amor é uma outra vida e este tipo de vida pode morrer ou nunca existir sem amor.

Cabe então retornarmos ao nosso desejo de independência. Algumas vezes, o caminho tomado por esse desejo pode ser o de voltar a uma situação em que não percebíamos o outro, a uma situação em que necessitávamos de alguém e nem nos dávamos conta. O tamanho da nossa fragilidade e força depende de nossa relação com nossos desejos. Quando eles tornam-se uma compulsão, podemos viver solitários, porém não somos independentes. A tentativa de desfazer a importância dos outros na nossa vida pode estar relacionada a uma compulsão a estar acompanhado para não ver quem está do nosso lado. Como um bebê que está acompanhado sem perceber e sua dependência é total.

A maturidade proporciona descobrirmos que libertarmo-nos de nós mesmos é muito mais difícil que eliminar a dependência nos relacionamentos. Porque a autonomia é mais ampla que a independência. Autonomia pode ser definida como a faculdade de se governar por si mesmo. Governar é algo bem mais complexo que simplesmente satisfazer os desejos, pois alguns de nossos desejos são impossíveis de realização. Governar as insatisfações, sem recorrermos a um alívio através de uma compulsão é o desafio proposto pela atualidade. Compartilhar a vida com os outros pode ser uma escolha governável quando procuramos os outros exatamente por sermos independentes e possuímos autonomia para lidar com a fragilidade humana.

 

Drª Simone Engbrecht (hotsite)
CRP  07/05555 – Psicóloga e Psicanalista



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