Olhando
para o próprio umbigo
Vivemos
em grupos. Mesmo quando estamos concretamente sozinhos, lembranças
de outras pessoas habitam nosso pensamento. Por que será que
às vezes temos melhor clareza do que se passa com os outros
do que o que acontece dentro de nós?
Aprendemos
a nos diferenciar e a saber quem somos somente ao longo da vida. Não
nascemos prontos e maduros do ponto de vista emocional. De início,
a criança não sabe diferenciar estímulos internos
dos externos. Acredita que o que lhe causa desprazer vem de fora.
Essa é a raiz desta forma de alívio - perceber como
pertencendo ao outro aquilo que dói perceber em si.
Enquanto
adultos, existe uma variação de proporção
em que isso acontece. Em alguns momentos, as pessoas utilizam-se mais
deste mecanismo e escutam o que ocorre dentro delas com menor precisão;
outras vezes, conseguem administrar seus conflitos mais facilmente.
Quanto mais alguém puder agüentar conviver com suas falhas
sem que sua auto-estima fique comprometida, com mais clareza saberá
quem é, quais são seus ideais, que escolhas está
fazendo na vida.
Parece
contraditório, mas alguém que não admite suas
limitações, nem por isso tem amor por si. Para gostar
de si mesmo, respeitar-se não adianta negar as limitações.
Também para melhorar a auto-estima não adianta dizer:
"vou pensar em mim", "vou me cuidar". Muitas vezes
não controlamos o que sentimos, pensamos e queremos. Entender
que algo em si não vai bem e que não se tem controle
é um sinal de estima por si, de cuidado. Quem se olha no espelho,
se cuida. Mas, por que às vezes perceber as limitações
é tão difícil? São muitas as razões,
mas esta percepção pode se aliar a uma auto-crítica
muito dura. A reflexão sobre sua vida, neste caso, não
pode ser feita porque sua auto-estima está abalada. A tarefa
consiste então em questionar-se sobre a razão de suas
críticas, que a fazem sentir-se tão desvalorizada, procurando
como único alívio a cegueira diante do espelho.
Um empobrecimento
na auto-estima faz com que ninguém esteja satisfeito com quem
é e o que tem. Claro que sempre estabelecemos ideais novos
a cada ideal alcançado. Do ponto de vista humano sempre estaremos
desejando o que não temos. Só que há uma diferença
entre olhar para o futuro e em não respeitar o presente. Pensar
só no futuro, olhar só para a vida do outro pode ser
uma maneira de recusar-se a aproveitar o presente. Só percebemos
com clareza o que acontece no mundo quando conhecemos o que ocorre
dentro do universo que existe dentro de nós.
Drª
Simone Engbrecht (hotsite)
CRP 07/05555 – Psicóloga e Psicanalista
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