Independência
ou morte
Independência.
Todos ambicionam alcançá-la e, ao mesmo tempo, há
uma força que pulsa contrariamente a esta independização.
Esta força não é externa, está dentro
de cada um. Para refletirmos como se dá o processo do nosso
crescimento pessoal.
O primeiro
grito de independência se dá com o corte do cordão
umbilical. Esta situação é usada como metáfora
para os momentos de separação que significam um desenvolvimento
do ser: Ah! Fulano conseguiu cortar o cordão. Mas esse grito
não o torna independente de fato. O homem nasce desprovido
de condições de sobreviver sozinho. Necessita de alguém
que o alimente e que o proteja. Depende durante anos da pessoa que
promove seu bem-estar.
A criança
vai aprendendo a falar, a caminhar, a se vestir sozinha. E fica independente?
Não. A dependência torna-se mais complexa. À medida
que cada um consegue se virar concretamente, vai dependendo do olhar,
do conselho, da palavra, do interesse do outro. Dependendo do amor
do outro. Há porém duas formas de depender deste amor.
Quando a criança aprende a falar, usa a linguagem basicamente
como uma maneira para comunicar a alguém o que quer. Com o
amadurecimento, a pessoa decifra seus desejos e vai em busca daquilo
que ambiciona. Este segundo passo é o que realmente chamamos
de independência quando nos referimos a um adulto.
Um adulto
independente não é alguém que diz "eu me
basto", que não precisa de alguém; mas alguém
que tem consciência do que valoriza e possui criatividade para
alcançar o que valoriza. Quando alguém cria algo, está
se colocando no mundo de forma independente de uma matriz de reprodução.
Há
dependências que levam à morte física, como as
drogas; e dependências que levam à morte dos desejos.
Esta última forma de dependência é aquela em que
nada satisfaz a pessoa porque ela não sabe mais o que quer
e quem é. É interessante que, para sermos independentes,
passamos necessariamente por uma situação de dependência,
mas por outro lado, a manutenção desta situação
nos aprisiona.
Narciso
admirava-se no reflexo das águas e apaixonara-se por sua própria
imagem. Ao desejar possuir a imagem, se afoga nas águas. É
importante que tenhamos amor por nossa imagem, mas se nos apaixonarmos
por ela corremos o risco de dizer: "eu me basto" e nos afogarmos
em nós mesmos.
Com
tudo isto, cabe diferenciar independência de egoísmo.
Depender do amor não nos aprisiona. Mas transformar o amor,
difícil de ser definido, em trocas concretas: "se não
fizeres isso, não sou mais teu amigo" faz com que nos
tornemos dependentes de ações concretas, produtos, bens
materiais e não consigamos cortar o cordão.
Aprendemos
a caminhar com a ajuda de alguém. Para que nos tornemos independentes,
não temos que trilhar um caminho de forma solitária,
mas devemos ver qual o caminho que queremos trilhar.
Drª
Simone Engbrecht (hotsite)
CRP 07/05555 – Psicóloga e Psicanalista
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